O preço da polarização nas instituições, relações e identidades brasileiras
Impacto talvez mais doloroso é o que se sente nas relações pessoais: as famílias se dividiram, as amizades se romperam e conversar sobre política virou um risco absoluto
De um lado, o medo do autoritarismo disfarçado de populismo. De outro, o ressentimento com o “sistema” e flertes com golpe de Estado. No meio disso tudo, o diálogo vira ruído, e o país fica refém da raiva e do medo.
As manifestações de 2013 acenderam uma chama que, à época, parecia ser apenas o despertar de uma nova cidadania política. Milhões foram às ruas por causas diferentes: corrupção, gastos da Copa, qualidade dos serviços públicos. Aquele momento revelou uma sociedade cansada de promessas e de intermediários políticos, mas ainda sem uma narrativa clara sobre o que queria colocar no lugar. Essa energia social, desorganizada e quase contraditória, acabou sendo capturada por discursos cada vez mais radicais, que transformam a indignação em uma identidade política.
Nos anos seguintes, a crise econômica e o processo de impeachment de Dilma aprofundaram as divisões. A Lava Jato, que começou como símbolo de esperança e justiça para muitos, virou instrumento de disputa moral e partidária. A prisão e posterior soltura do presidente Lula, seguidas pela ascensão e prisão domiciliar de Bolsonaro, consolidaram o país em polos cegos e cada vez mais distantes, onde cada lado se vê como vítima e salvador simultaneamente. A pandemia apenas ampliou o abismo, convertendo até temas de saúde pública em testes de lealdade ideológica e puro negacionismo. No fim, o que começou como um desejo coletivo por mudança se transformou numa guerra de narrativas, e o diálogo, que deveria ser o alicerce da democracia, passou a ser visto como fraqueza; quem tenta usá-lo é taxado de “isentão”.
A polarização cobra um preço alto de toda a nossa sociedade. Enfraquece as instituições, destrói a confiança e transforma adversários em inimigos. O campo das ideias cede lugar à identidade de quem as defende, e o consenso vira um tabu. O impacto talvez mais doloroso é o que se sente nas relações pessoais. As famílias se dividiram, as amizades se romperam, e conversar sobre política virou um risco absoluto. Uma simples discordância se transforma em disputa de torcida, um verdadeiro “Fla x Flu” ideológico e interminável em que ninguém quer entender, só vencer.
Nas redes sociais, essa lógica se amplifica. A raiva rende cliques, a indignação é recompensada, e os algoritmos alimentam tudo isso. Aos poucos, a realidade comum se fragmenta em bolhas de confirmação.
Nós, liberais, nos preocupamos com o que realmente importa: garantir igualdade de oportunidades para que todos possam melhorar de vida. A nossa prioridade é que cada pessoa tenha condições reais de progredir com esforço próprio, sem depender de possíveis soluções mágicas ou políticas públicas que sejam passageiras. Por isso, apresentar soluções realmente efetivas para os grandes problemas sociais do país precisa ser nosso foco em 2026. Para além das disputas cegas, é preciso buscar força na intermediação de objetivos em comum, escutando especialistas, sociedade civil e tomadores de decisão.
Precisamos construir um cenário de compromisso com a democracia, enxergando o protagonismo das instituições que a definem e fortalecem, sem esquecer que são as relações de respeito e diálogo numa sociedade que costuram o ambiente democrático fundamental para o desenvolvimento sustentável do país.
*Angelo Novaes é especialista em Comunicação e Experiência no Livres e estudante de Gestão Comercial pela Universidade Nove de Julho.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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