Estudante iraniana fala sobre rotina em meio à guerra: ‘Preços exorbitantes’

Em meio a um conflito sem precedentes, a Jovem Pan entrevistou uma iraniana do interior do país durante esse período de guerra

  • Por Luca Bassani
  • 18/05/2026 10h49
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AFP motjaba khamenei Mulheres iranianas caminham ao lado de uma faixa que retrata o novo líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, em uma rua no norte de Teerã, em 16 de abril de 2026

A guerra no Oriente Médio se iniciou no dia 28 de fevereiro e em poucas horas se transformou em um conflito regional generalizado em múltiplas frentes e com consequências globais imprevisíveis. Apesar do cessar-fogo alcançado entre os beligerantes nas últimas semanas, a precariedade do acordo e os impasses nas negociações apontam para um horizonte de grande instabilidade com a crescente possibilidade de recomeço da guerra.

Muitas imagens percorreram o mundo sobre as operações especiais israelenses, bombardeios americanos e as caravanas de deslocados no Líbano, mas muito pouco tem se veiculado do que aconteceu e acontece de fato dentro do Irã. Desde o princípio do conflito, a República Islâmica instituiu um bloqueio digital em múltiplas frentes, proibindo o acesso à internet seja internamente, seja aos sites e plataformas estrangeiras. Entre dezembro e janeiro de 2026, enormes protestos ocorreram em diversas cidades do país após o aprofundamento da crise econômica. A mobilização se deu majoritariamente online, mas a repressão se concretizou com muito sangue derramado. Agências internacionais que monitoram a situação humanitária no país há décadas apontam para um número de manifestantes mortos entre 7 e 35 mil pessoas, enquanto o número de presos ultrapassa 50 mil.

Nesse contexto pós-manifestações e início de uma guerra com duas potências militares, uma regional e uma global, o regime iraniano decidiu desconectar de vez os 90 milhões de iranianos da rede mundial de computadores. A decisão parte de um pressuposto de sobrevivência política para desmobilizar os opositores, mas também passa por um prisma de narrativa geopolítica para impedir o envio ao exterior de imagens da devastation da guerra internamente e o compartilhamento de histórias de cidadãos comuns.

Em 2019, ainda como um jovem correspondente estive no Irã por cerca de duas semanas visitando o país em sua vastidão histórica e pude vivenciar de maneira bastante pessoal a incrível hospitalidade dessa nação milenar. Muitos dos conhecidos ao longo da jornada, se tornaram grandes amigos e com o tempo fontes valiosas sobre o que se passa nas entranhas de um país que tem se fechado ao mundo. Após quase 50 dias sem contato, finalmente informações emergeram sobre a real situação no interior do país, na região fronteiriça de Zahedan, quase no Paquistão. Enquanto a população cosmopolita e urbana de Teerã vive a guerra muito mais próxima à versão oficial do regime, províncias rurais e interioranas vivem o drama econômico de má gestão somado a um conflito de escala regional.

O Rial iraniano, moeda nacional, já era a moeda de menor valor frente ao dólar antes do conflito, quando uma unidade da moeda americana comprava cerca de 1.4 milhão de Rials. Hoje, essa situação se agravou ainda mais, já que um dólar vale aproximadamente 1.8 milhão de Rials. Para uma nação que não é autossuficiente em inúmeros setores e também é considerada uma das mais sancionadas do mundo, essa flutuação cambial acaba impulsionando a inflação de itens básicos.

Segundo Shirin, estudante de medicina em Zahedan, a inflação de alimentos tem tornado a vida extremamente desafiadora. Antes da guerra uma garrafa de óleo de cozinha, elemento essencial em todas as casas, custava cerca de 1.3 milhão de Rials e que hoje ultrapassa os 6.5 milhões de Rials. A inflação média no Irã segundo as estimativas do FMI vai ultrapassar os 68% para bens de consumo, e pode chegar a 110% para os alimentos. O salário médio no país varia entre 40 e 50 milhões de Rials (entre 1110 e 1390 Reais brasileiros), o que já inviabiliza a manutenção do orçamento doméstico para a vasta maioria das famílias no interior. O governo iraniano reajusta os salários em 20% ao ano, medida insuficiente frente à galopante inflação quase quatro vezes maior que o reajuste.

Outro ponto explicado por Shirin à nossa reportagem é referente aos preços exorbitantes para dispositivos eletrônicos e serviços digitais em um período de fechamento de rotas comerciais e apagão digital. De acordo com ela, a maioria dos produtos de tecnologia, tais coimo telefones celulares, computadores e acessórios eram provenientes dos Emirados Árabes Unidos, país envolvido diretamente na guerra. Após ataques iranianos às infraestruturas civis e militares no país árabe, as importações foram suspensas, causando uma escassez na oferta e um crescimento absurdo nos preços dos poucos produtos ainda disponíveis para venda no mercado iraniano.

O bloqueio digital é completo e as opções de acesso são poucas. Apenas funcionários do governo e a alta cúpula da Guarda Revolucionária Islâmica conseguem utilizar a internet, enquanto poucos estudantes, tais como Shirin, raramente conseguem conectividade dentro das universidades. Mesmo nesses ambientes, acesso ao Google, YouTube, Instagram, Fcebook e outros sites internacionais são extremamente limitados, mesmo com a utilização de VPNs. Enquanto o blecaute digital conseguiu desmobilizar os manifestantes opositores ao governo, muitos comerciantes e trabalhadores urbanos que tinham a internet como principal ferramenta de trabalho também seguem impedidos de realizar suas vendas e marcar horários, o que por sua vez agrava a crise econômica diminuindo a entrada de renda para a população economicamente ativa.

Por fim, Shirin nos disse que a máquina de propaganda do governo tem sido eficiente em vender a guerra como um conflito vencido para o público interno, realizando aglomerações públicas nas praças de grandes cidades com frequência para demonstrar apoio à República Islâmica. Embora levantamentos internacionais apontem o apoio ao governo ainda estagnado na faixa de apenas 20% da população iraniana, a sangrenta repressão em janeiro e a guerra vigente conseguiram desmobilizar a oposição através do medo.

As negociações para um final definitivo do conflito seguem em curso, mas com evidentes impasses adiante. O programa nuclear iraniano, a reabertura permanente do Estreito de Ormuz e o levantamento das sanções serão temas essenciais para as próximas tratativas. Tudo indica que até a conclusão dessa nova crise geopolítica regional, Shirin e tantos outros milhões de iranianos e iranianas deverão viver um dia de cada vez, comprando o que o dinheiro do presente consegue obter e olhando com desconfiança e receio para os dias futuros.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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