Pauline Kael era polêmica, sim, mas era refinada e irresistivelmente chata

Nos meus 30 anos como crítico de cinema profissional, homenageio Pauline Kael, aquela que mais me inspirou nessa tarefa

  • Por Marcos Petrucelli
  • 06/11/2020 13h04
Wikimedia CommonsPauline Kael se aposentou em 1991, e morreu em 2011, aos 82 anos de idade

Hoje acordei e me lembrei de que estou completando 30 anos como crítico de cinema profissional. Foram centenas de filmes assistidos a cada ano, incontáveis séries de TV, os mais variados festivais de cinema pelo Brasil, cinco coberturas do Oscar em Los Angeles e muito estudo graças aos guias e livros escritos por pessoas que definitivamente influenciaram minha carreira. A lista seria longa, mas prefiro escrever sobre aquela considerada a maior crítica de cinema dos Estados Unidos no século XX. Seu nome: Pauline Kael. Ela foi a maior, especial, e passou décadas escrevendo, discutindo, elogiando e não raro massacrando filmes com críticas mordazes. Ela influenciou muita gente, inclusive eu. Na adolescência, descobri três nomes (quase simultaneamente) cujos textos sonhava um dia saber fazer igual, tamanho o impacto que causavam. Primeiro foi Paulo Francis, indisciplinado, raivoso: ”Cinema brasileiro não presta. Ponto.” Mais cortante impossível. Então vieram Dorothy Parker, com a sua sagacidade e ironia, e Pauline Kael.

Várias coisas em Pauline me chamavam a atenção. Causava-me curiosidade, por exemplo, o fato de que a mais importante crítica de cinema americana havia iniciado sua carreira somente aos 34 anos de idade. Logo entendi. Ocorre que naquele momento Kael sabia tudo sobre cinema, conhecia centenas, milhares de filmes. Portanto, tinha bagagem, segurança, embasamento. William Shawn, então editor da revista ”New Yorker”, dizia que ela era uma ”cinemateca ambulante”. Era fascinante também o estilo altamente descritivo de Pauline, que era capaz de narrar mínimos detalhes de uma sequência inteira de um filme. A crítica inclusive ficou famosa justamente por causa dessa capacidade de memorizar tantas cenas, em que chegava a analisar os gestos dos atores e atrizes. Atualmente – e mesmo quando eu comecei a escrever sobre cinema na revista Playboy, no final dos anos 80 – pode parecer óbvio que um crítico faça o que Pauline fazia. Só que ela foi a precursora dessa técnica ou estilo.

Foi em 1953 que Pauline Kael escreveu a primeira crítica. Era um pequeno jornal em Boston, Massachusetts (costa leste dos Estados Unidos). Ela começou a realizar várias colaborações, até chegar a uma publicação de circulação nacional, a revista McCall’s. Aqui, ela iniciava seu estilo corrosivo, em que não perdoava nada e ninguém. Mas como ainda estava começando a carreira, foram os donos da empresa que não a perdoaram. Pauline foi sumariamente demitida porque simplesmente destruiu o filme ”A Noviça Rebelde” (The Sound of Music, 1965), um dos filmes mais populares daquele ano e o primeiro em 26 anos a quebrar o recorde de bilheteria do clássico ”…E o Vento Levou” (Gone with the Wind, 1939).

Assim descreveu Pauline sobre ”Noviça”: ”Nós nos tornamos idiotas emocionais e estéticos quando nos ouvimos cantarolando essas músicas doentiamente melosas”. Difícil não concordar com ela, mas o problema é que os autores das canções são papas da música: Richard Rodgers e Oscar Hammerstein. Certamente não foi um plano arquitetado, mas o episódio fez Pauline Kael chamar a atenção de William Shawn. Em 1967, ela estava na prestigiada revista ”The New Yorker”. Foram ao todo 24 anos de trabalho na publicação – ela se aposentou em 1991 –, que lhe deu o que queria: independência e liberdade criativa. Seus textos sempre eram longos, verdadeiras teses para expor com clareza suas ideias, ainda que seus argumentos pudessem ferir ou indignar muita gente. Para cortar de vez quem a atacasse, Kael dizia simplesmente que ”a objetividade palerma” era seu pior inimigo.

Pauline Kael, na verdade, não tinha papas na língua. Mas era dotada de grande sensibilidade e aversão ao tecnicismo, aos pseudos-intelectuais. Ainda que muitas vezes dedicasse várias linhas e páginas para falar sobre um filme que pouca gente iria ver, seu texto era carregado de simplicidade. Tinha um quê de amadorismo, mas daquele amador apaixonado por cinema que sai da sala escura e rabisca suas considerações num caderninho. Kael escrevia primeiro para ela, sem se preocupar com o que os outros achariam. Levava isso tão a sério que durante a vida fez várias inimizades. Chegou a sugerir que Orson Welles era um farsante e que ele teria se apossado da autoria de ”Cidadão Kane” – o roteiro é de Herman Mankievicz –, quando todos endeusaram o jovem diretor como único responsável pela concepção da obra de arte. O texto em que sustenta essa ideia está no livro ”Criando Kane e outros ensaios”, no capítulo ”Criando Kane” (lançado pela editora Record). Pauline escreveu esse texto em 1971, na mesma ocasião em que o roteiro de ”Cidadão Kane” seria publicado em livro. Orson Welles, então com 70 anos de idade, explodiu de raiva e escreveu uma carta grosseira para a autora.

Pauline Kael era polêmica, sim. Mas era refinada e irresistivelmente chata. Mesmo não concordando com o que ela escrevia, seu texto trazia tanta intensidade e segurança que de uma forma ou de outra acabamos do lado dela. Esse era o segredo e o charme de Pauline. Ela morreu em 2001, aos 82 anos de idade. Mas suas críticas continuam vivas em seus textos, seus livros, que tanto me ensinaram e ainda ensinam.

“Quando (Kelly) McGillis não está na tela, o filme é um vistoso comercial homoerótico; os pilotos pavoneiam-se pelo vestiário, toalhas precariamente presas à cintura. É como se a masculinidade fosse redefinida pela aparência de um rapaz com metade das roupas, e como se o narcisismo fosse o equivalente a ser um guerreiro.”

(Pauline Kael, crítica de cinema, sobre o filme ”Top Gun – Ases Indomáveis” – direção de Tony Scott, 1986, no livro ”1.001 Noites no Cinema”)