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Patrícia Costa

Minerais são priorizados para construir armas de guerra e impactam transição energética

Relatório do Transition Security Project revela que lítio, cobalto e terras-raras — pilares das tecnologias limpas — estão sendo desviados para a indústria militar, criando um novo risco global

Patricia Costa

guerra na ucrania
guerra na ucrania Roman PILIPEY / AFP

A transição energética depende de um conjunto de minerais hoje disputados por governos e empresas como estratégicos. Mas um novo relatório do Transition Security Project expõe uma distorção que ameaça esse processo: parte crescente desses minerais está sendo desviada para aplicações militares, não para tecnologias de baixo carbono. Segundo o estudo, a demanda bélica por lítio, cobalto, grafite e terras-raras cresce em velocidade superior à demanda civil. O documento mostra que os estoques militares previstos para os próximos anos já são suficientes para deslocar a oferta destinada a setores essenciais para a descarbonização. Apenas no caso do cobalto, as reservas destinadas à defesa norte-americana — cerca de 7,5 mil toneladas — poderiam gerar mais de 80 GWh em baterias. Energia capaz de mover aproximadamente 100 mil ônibus elétricos. É um choque direto entre segurança climática e segurança militar. Esse redirecionamento tem implicações que vão além da disputa geopolítica. Ao elevar a competição por insumos, governos ampliam a pressão sobre novas frentes de mineração, muitas delas localizadas em regiões ambientalmente sensíveis. Na Amazônia, por exemplo, pesquisadores já alertam para o risco de um novo ciclo de impactos sociais e ambientais impulsionado justamente pela corrida global por minerais estratégicos.

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O relatório mostra também que a militarização dos minerais críticos relega a transição energética a um papel secundário. Em vez de acelerar a eletrificação do transporte, ampliar a capacidade de armazenamento renovável ou reduzir emissões, reservas estratégicas vêm sendo construídas para atender a sistemas de defesa, mísseis guiados e tecnologias de vigilância. O mundo volta a repetir a mesma lógica que marcou outras revoluções tecnológicas: a prioridade não é o clima, mas o poder. Sem uma governança clara sobre origem, destino e critérios de uso desses minerais, a transição energética corre o risco de perder impulso justo na década mais decisiva para limitar o aquecimento global. Não se trata apenas de extração responsável — mas de decidir politicamente para onde vai o que é extraído. A advertência do Transition Security Project é se os minerais que deveriam alimentar a economia verde forem absoridos pela indústria de guerra, a transição climática será retardada, mais cara e — no limite — insuficiente para evitar o agravamento da crise climática. Ou o mundo escolhe priorizar o futuro do planeta, ou continuará abastecendo conflitos que comprometem justamente esse futuro.

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