Crítica ao poder público no combate à Covid-19 é aceitável, mas dúvida sobre a eficácia da máscara é burrice

Estudos têm mostrado resultados do acessório em situações como transporte público e proximidade social, contrariando os posicionamentos que sugerem que seu uso provoca problemas respiratórios e alterações metabólicas

  • Por Paulo Mathias
  • 10/01/2021 08h00
BRUNO ROCHA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDOPessoas caminhando usando máscara no metrô de São Paulo

Com o passar da pandemia, o que se enxerga em muitos de nós é um sentimento de esgotamento por tantas regras impostas pelo poder público para conter a disseminação do Covid-19. Contudo, deve-se reconhecer que uma delas é essencial para a proteção individual e coletiva no combate a essa doença. Trata-se do uso de máscaras. A meu ver, uma medida preventiva, de cunho social, que deve se estender ainda após a instituição da vacina, como forma de conter a propagação do vírus e reduzir o número de mortos no país. Por outro lado, existem opiniões que consideram dispensável o seu uso, criticando sua obrigatoriedade, como no patético e recente depoimento da juíza Ludmila Lins Grilo, da Vara Criminal da Infância e da Juventude de Unaí, noroeste de Minas Gerais, que viralizou nas redes sociais, nesta semana.

A juíza, de forma irônica, em imagens postadas no Twitter, ensina como se deve caminhar em locais fechados, como shoppings, sem a necessidade do uso de máscara, indicando um “passo a passo”. Segundo Ludmila, basta comprar um sorvete, pendurar a máscara na orelha e caminhar naturalmente, pois, de acordo com ela, “o vírus não gosta de sorvete”. Uma versão certamente ridicularizada pelos pensantes de bom senso, para os quais o exercício da paciência é uma das armas da guerra contra o coronavírus, em que a mais eficaz, no momento, é o uso de máscaras. É óbvio que alguns pontos podem e precisam ser contestados como, por exemplo, quando e onde se deve usar a máscara, se o isolamento é pertinente para toda a população. Todavia, estudos sobre a segurança de um resultado pelo uso da máscara tem aferido a eficiência do acessório em situações como transporte público e proximidade social. Durante uma crítica, é preciso saber separar as regras impostas pelo poder público da eficácia que a máscara nos proporciona. São questões absolutamente diferentes.

Após as mais diversas pesquisas ao redor do mundo, a Organização Mundial as Saúde (OMS) passou a recomendar que os governos incentivem o uso da máscara como fator de proteção, mas não descarta a necessidade de medidas de higiene, como lavar as mãos com frequência e manter certo distanciamento entre as pessoas. No Brasil, essa medida foi adotada por grande parte da população, com algumas ressalvas, e fiscalizada por policiais militares, em locais públicos. Quanto à variedade de tipos de máscaras que existem no mercado, um estudo publicado pela revista ACS Nano, no primeiro semestre de 2020, demonstrou, no caso das máscaras de tecido, uma maior eficácia nas peças com materiais mais grossos, que impedem a permeabilidade. Mas, sempre atentando para um conjunto de ações que se complementam no combate ao vírus, ressaltando a eficácia protetiva das máscaras, de acordo com 172 estudos em 16 países e seis continentes, conforme publicação recente na revista científica, The Lancet.

Pesquisas recentes, realizadas na Dinamarca, demonstraram a diferença no número de infectados entre os que usam a máscara como proteção e os que não usam, apontando sua importância no controle de origem. Entre abril e junho de 2020, cientistas da Universidade de Copenhagem recrutaram 6024 participantes, testados sobre a contaminação pelo Sars-Cov-2, após o uso da máscara. Metade dessas pessoas recebeu máscaras cirúrgicas para serem usadas ao saírem de casa; a outra metade foi orientada para não utilizar a proteção. O resultado apontou uma pequena diferença no que se refere à contaminação dos dois grupos. Nesse sentido, 1,8% das pessoas com máscara foram infectadas, contra 2,1% do grupo sem proteção. A pesquisadora do Hospital Telemark, da Noruega e da Escola de Saúde Pública de Harvard, Mette Kalager, em entrevista ao jornal The New York Times, afirmou que o uso de máscaras não reduz o risco de contaminação. E foi rapidamente contestada por inúmeros pesquisadores, como Thomas Friedmen, ex-diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, que relatou não haver dúvida sobre o controle de origem pelas máscaras. Para o pesquisador, o que pode variar sua eficácia é a escolha da máscara e o tipo de exposição ao vírus.

Outro estudo que recomenda o uso das máscaras como forma de proteção contra a Covid-19 foi realizado no hospital universitário de Kattankulathur, na Índia, em que 250 profissionais da saúde avaliaram as máscaras cirúrgicas N95, concluindo que filtram 95% das partículas microscópicas, contrariando os posicionamentos que sugerem que o uso de máscaras contra o coronavírus provoca problemas respiratórios e alterações metabólicas. Um olhar sem qualquer base científica, que gera apreensão na população e desconfiança sobre o uso adequado desse instrumento de defesa contra a doença. Agora, faço uma pergunta: se o uso de máscaras cirúrgicas em hospitais é tido como preventivo para profissionais da saúde e pacientes, desde sempre, qual a razão de tanta polêmica nesse sentido? Como responde o professor P. K. Purushothaman, que participou de um desses estudos, considerando que, na atual pandemia, sua escolha é, sem dúvida, pelo uso da máscara.

É necessário que nos atentemos para a eficácia da utilização das máscaras, que enfrenta opositores descabidos e desinformados, frente à comprovação de redução de mais de 80% do risco de infecção pelo Sars-CoV-2, se comparado ao não uso das mesmas, barrando, em alguns casos, até 97% de partículas presentes no ar. O uso correto desse apetrecho de proteção consegue reduzir tanto a emissão pelos infectados quanto a contaminação pelos suscetíveis. Portanto, por estarmos atravessando uma guerra contra um inimigo invisível, precisamos fazer uso das armas de eficácia comprovada por estudos científicos recentes, exercendo a cidadania, ao pensarmos não somente em nós, mas no coletivo. Sei que não está sendo fácil pra ninguém, mas é hora de unir forças, com consciência e responsabilidade social, apoiados pela ciência, na luta contra o coronavírus, assumindo os incômodos, exaltando o esforço das pesquisas até vencermos a batalha final. Falta pouco. Vamos sair dessa.