Culpar os EUA pelo que acontece em Cuba é a deturpação de uma realidade escancarada

Milhares de cubanos foram às ruas para reivindicar comida, educação e liberdade, mas a esquerda brasileira fecha os olhos e prefere apontar para um embargo iniciado há seis décadas

  • Por Paulo Mathias
  • 18/07/2021 08h00
Cristobal Herrera-Ulashkevich/EFE - 16/07/2021Cubanos-americanos protestam contra a ditadura na ilha e pedem intervenção americana; no Brasil, esquerda culpa os EUA pela crise em Cuba

Quanto mais eu tento fugir das ambiguidades e da inversão de valores em temas da atualidade, mais sou perseguido por elas. Agora é a vez de Cuba e o posicionamento da esquerda brasileira, como sempre encontrando um “culpado” — no caso, os Estados Unidos — por todas as manifestações de revolta do povo cubano, que, na verdade, representam o descontentamento com um regime ditatorial, iniciado em 1961, dois anos após a Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro. Na ocasião, a capital Havana foi ocupada pelos revolucionários socialistas. Hoje, diante das manifestações da população, que clama por liberdade, vêm os esquerdistas do nosso país, com aval do atual presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, culpar o governo norte-americano pelos protestos recentes, pela situação econômica e pela falta de liberdade no país. Mais uma vez, a deturpação de uma realidade escancarada a nossos olhos, a qual só não enxerga quem não quer. Parece que esse é o caso de uma esquerda incapaz de olhar para o próprio umbigo.

Vamos voltar no tempo e entender como se deu o embargo de Cuba pelos Estados Unidos, que, após a vitória da Revolução Cubana em 1959, liderada por Fidel Castro, ampliou a tensão que sempre existiu entre os dois países. Em 1960, Cuba iniciou uma onda de nacionalizações que afetou os negócios norte-americanos na ilha, chegando a um prejuízo de US$ 1 bilhão, incluindo terras e refinarias de açúcar. Em fevereiro de 1962, o governo de John F. Kennedy ampliou o embargo, iniciado no ano anterior, restringindo as importações cubanas. Pela Lei de Assistência Externa (FAA), aprovada pelo Congresso americano em 1961, o presidente podia impor essas medidas até que o governo de Cuba indenizasse os cidadãos norte-americanos pelas nacionalizações. Esse embargo perdura até os dias de hoje, embora atenuado em determinadas ocasiões. Porém, no governo de Bill Clinton, a Lei da Democracia Cubana (1992) e a Lei da Solidariedade pela Liberdade e Democracia de Cuba (1996) reforçaram o embargo. Esta última limitou as operações comerciais de outros países com Cuba, além de permitir que norte-americanos nascidos no país possam processar quem confiscou suas propriedades na ilha. Em 2015, com o governo Obama, as relações entre os dois países foram retomadas, com a reabertura da embaixada dos Estados Unidos em Cuba. Em 2017, com Trump no governo, reforçaram-se as sanções do embargo. Serão esses dados suficientes para justificar a atual revolta dos cubanos contra a ditadura que se instalou no país? Na verdade, a realidade é outra, e as reivindicações por parte da população vão muito além desses fatos.

No dia 11 de julho deste ano, milhares de cubanos saíram às ruas, pela primeira vez em mais de 60 anos, protestando, em cerca de 20 vilarejos e cidades de toda a ilha, em nome da liberdade e ordenando “abaixo à ditadura”. Em vista disso, o presidente Miguel Díaz-Canel, em um pronunciamento na TV, convocou seus apoiadores a confrontar os manifestantes. Segundo um deles, que participou do protesto em Pinar del Rio, “isso é pela liberdade do povo, não aguentamos mais. Não temos medo. Queremos uma mudança, não queremos mais ditadura”. O protesto, em vários locais de Cuba, teve início na internet e se alastrou pelas ruas, onde os manifestantes diziam não ter comida, remédios e, muito menos, liberdade. Além de uma situação econômica caótica, o país também enfrenta as consequências da crise provocada pela atual pandemia do coronavírus, com a falta de vacinas, aumento de casos da doença e de mortes, o que levou o governo a pedir ajuda internacional. Além disso, toda essa crise provocou uma queda do turismo na ilha, um de seus motores econômicos. Acredita-se que, com a ampliação do uso das redes sociais em Cuba, a população pôde extravasar sua indignação com o regime ditatorial a que é submetida e gritar por mais liberdade e democracia.

Diante de todo o movimento de revolta do povo cubano e dos protestos ocorridos nesta semana contra a ditadura de Miguel Díaz-Canel, escolhido pela família Castro para seguir governando com punhos de ferro, personalidades da esquerda brasileira se manifestaram, culpando o bloqueio econômico dos Estados Unidos por toda a situação de caos. Muito me espanta essas desculpas esfarrapadas perante um governo ditatorial, que se estende ao longo da história de um país, com uma pobreza extrema, que clama por liberdade em um momento de auge de uma crise econômica e ideológica. Não bastando isso, a esquerda do nosso país culpa o atual governo pela falta de “liberdade” no Brasil, descartando qualquer fato que aponte para a insatisfação do povo cubano em relação à ditadura que se instaurou no país, além de atribuir aos Estados Unidos toda a responsabilidade por essas manifestações na ilha. O que dizer disso tudo? Minha revolta, por novamente fatos serem distorcidos para acobertar a realidade como ela se apresenta. Fiquemos alertas.

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