O PT deveria se mudar para a Venezuela

Ao considerar o país vizinho como exemplo de democracia, petistas, que são movidos por uma cegueira ideológica, deveriam ir para lá e não voltar para o Brasil

  • Por Paulo Mathias
  • 13/12/2020 08h00
Najara Araujo/Câmara dos DeputadosNa última segunda-feira, o PT lançou uma nota dizendo que as eleições na Venezuela foram democráticas

Em meio a tantas incompreensões sobre o cenário político, uma das questões que mais me chamam a atenção é essa idolatria que o Partido dos Trabalhadores (PT) apresenta em relação à Venezuela como exemplo de democracia. Na última segunda-feira, 7, os petistas lançaram uma nota oficial dizendo que as eleições venezuelanas foram democráticas. Acho que a solução mais cabível para tal falta de senso da realidade é que seus integrantes reúnam seus pertences e se dirijam, de mala e cuia, para a tal nação perfeita, capaz de acolher seus “hermanos”, despida, aos olhos do partido, de qualquer conotação que lembre a ditadura. Diante desse surto de interpretações descabidas, resta desejar uma boa viagem e, jamais, um breve regresso.

Durante os governos do PT, o olhar de seus integrantes a vários fatos ocorridos naquele país reforça essa teoria de que foram anos de cegueira perante fatos que por si só demonstravam o contrário. Desde a era Hugo Chaves até o momento mais crítico, com Nicolás Maduro, o Partido dos Trabalhadores tem apoiado um processo de erosão da democracia. Nesta semana, a deputada federal e presidente do PT, Gleisi Hoffmann, defendeu o presidente Maduro de acusações feitas pelos Estados Unidos ao presidente venezuelano. Para a deputada existem razões escusas por detrás dessa manifestação, que dizem respeito ao interesse dos norte-americanos nas reservas de petróleo da Venezuela. Pecando pela desinformação, sabe-se, por fontes idôneas, que as importações desse recurso energético pelos Estados Unidos, proveniente da Venezuela, é de apenas 6,6% da importação americana de óleo cru e derivados.

Outra afirmação descabida da deputada do PT é o argumento do partido sobre a eleição de Maduro, com 67% dos votos. Contudo, o que a deputada deixa de citar é que, em 2018, ano dessa última eleição presidencial na Venezuela, a porcentagem e abstenção de votos foi de 54%, se comparada a 2013, com apenas 20% de abstenção. Mais uma vez, a cegueira toma conta de um partido que quer, a todo custo, permanecer num universo de faz de conta, porque assim lhe convém. De acordo com Javier Corrales, cientista político estudioso da erosão democrática da Venezuela, houve 117 irregularidades eleitorais no país, entre os anos e 1999 e 2018. Além disso, segundo o cientista, a própria convocação para as eleições desrespeitou a Constituição, uma vez que foi realizada com atraso de seis meses. Em 2015, foi a vez do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao assinar um acordo petrolífero com a Venezuela, louvar a experiência do país vizinho, sob o governo de Hugo Chávez, na época. Para Lula, o presidente venezuelano colocava, na prática, um governo “extremamente democrático”. E com tantas incongruências ao longo dos governos petistas no Brasil, a pergunta é: até quando o PT pretende defender o governo da Venezuela? Para tanto, a única resposta plausível é que somente uma cegueira ideológica pode justificar a defesa do Partido dos Trabalhadores quanto ao desastre promovido pelo governo bolivariano de Maduro, que já dura sete anos.

Corroborando com essa “ilusão de ótica” do PT, em abril de 2019, o partido fez uma nota oficial em que condenava a “tentativa de golpe” na Venezuela, atribuindo esse ato à oposição da direita “golpista” e “antichavista”, que vem tentando tirar Maduro do poder há anos. Na nota, o partido ressalta as políticas voltadas para o bem-estar da população, instituídas pelo regime bolivariano, contrárias à exploração imperialista e proveniente das elites locais. Mas o que realmente se sabe, dentro de fatos apresentados ao longo dos anos de Maduro no poder, é que a legitimidade de seu governo é bastante questionável, em razão de todos os golpes e manipulações que fez uso para se manter no poder. Assim, essa onda de populismo da esquerda latino-americana, desde a década passada, da qual faz parte o PT, parece não perceber a destruição que a Venezuela vem sofrendo, em meio a um regime tirânico e incompetente. Como reflexo dessas ações, muitos dos eleitores de Bolsonaro declararam seu medo de uma possível vitória do PT, que certamente transformaria o Brasil em uma Venezuela.

Vale lembrar que em 20 de maio de 2018, na posse de Maduro, reeleito presidente da Venezuela, o PT se fez presente na figura da Gleisi Hoffmann, que fez declarações a jornalistas do país sobre o intervencionismo e a posição dita como agressiva do atual governo brasileiro contra o país. Assim como fez críticas ao governo dos Estados Unidos ao se referir às sanções impostas por esse país à Venezuela. Mais uma inversão de papeis entre o cordeiro e o lobo, em que o Partido dos Trabalhadores fez vista grossa a fatos que colocam em dúvida a legitimidade da reeleição do presidente venezuelano, eleito em um pleito em que muitas lideranças da oposição foram impedidas de concorrer, assim como observadores internacionais foram vetados de participar das apurações. Não bastando isso, veio à tona, no ano passado, a questão das dívidas que a Venezuela possui com o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), em torno de US$ 710 milhões, sendo parte da dívida correspondente a parcelas em atraso. Diante do fato, O BNDES prevê o risco de calote, e se caso isso se der, o banco poderá recorrer ao Fundo de Garantia à Exportação (FGE), que atua como um seguro. Esse débito se refere a obras de metrô, a cargo da Odebrecht, e demais obras realizadas pela Andrade Gutierrez, ambas envolvidas na Operação Lava Jato. Os empréstimos para a realização das obras foram efetuados pelo BNDES na gestão PT.

O que se viu de tudo isso apareceu, de forma clara, nas recentes eleições municipais deste ano, no Brasil, confirmando a derrocada do PT nas urnas em muitas cidades e capitais do país. Apesar desse cenário de diluição do partido, o deputado federal do PT Paulo Teixeira falou da necessidade de construir uma frente de esquerda no país para recuperar as posições perdidas nas eleições. Outro devaneio do partido que custa a perceber que está com os dias contados e que dificilmente chegará em 2022 com força para combater seus adversários políticos. Para isso, o partido precisaria se reinventar, pois o antipetismo continua com força total, com novos atores em cena, fragmentando, cada vez mais, a esquerda. Hora de baixar a guarda e entender que a era petista teve começo, meio e fim. E que as marcas deixadas em seu passado histórico dificilmente serão apagadas da memória de quem sofreu suas consequências.

O que mais a dizer de tudo isso? Até onde vai a hipocrisia do PT, que parece alheio a fatos, defendendo o indefensável, ridicularizando a postura de partidos de esquerda, bem-vindos a uma democracia que lidera o nosso país. Sem a menor condição de representar uma oposição séria e pertinente ao regime democrático brasileiro, ao Partido dos Trabalhadores, manchado por tantos atos ilícitos, provados e comprovados ao longo de sua permanência no governo, resta apenas uma saída, a de juntar os “trapos” e se mudar para a Venezuela, paraíso das falcatruas e dos não ditos. O povo brasileiro cansou. E, com certeza, vai torcer para que bons ventos levem o PT para bem longe daqui. Boa viagem.