A perda de tempo nem sempre é tempo perdido

Tudo o que é feito com prazer e paixão um dia poderá ser útil para a nossa vida

  • Por Reinaldo Polito
  • 16/04/2026 08h00
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Unsplash/Djim Loic tempo

Você já se viu desenvolvendo atividades que aparentemente jamais teriam utilidade na sua vida? Por exemplo, assistiu a uma palestra bobinha, de um orador ruim de microfone, que passou mais de uma hora contando piadas sem graça. Quanta perda de tempo!

Mas lá no meio, dando a impressão de ter sido quase por acaso, ele solta uma pérola que faria muita diferença na sua vida. Você se indaga: como não pensei nisso antes? Aquela dica, perdida na verborragia do orador, era a solução de que precisava. Valeu demais.

Pondo a conversa em dia

Esta semana, Max Gehringer e eu cumprimos um agradável ritual: um café da manhã anual em que fazemos um balanço do ano e do que esperamos para o próximo. Um papo que leva de três a quatro horas.

Relembramos uma live que fizemos para falar sobre carreira. Naquele dia, contamos experiências de quando morávamos no interior, ele em Jundiaí e eu em Araraquara.

Coincidentemente, quando garotos, por um bom tempo, desenvolvemos a mesma atividade: atuamos como locutores em serviços de alto-falante. Em algumas igrejas e praças públicas havia esses serviços. Tudo muito rudimentar. Uma aparelhagem simples, com microfone e dois ou três alto-falantes virados um para cada lado. O som era propagado pelo vento. Como desde pequenos tínhamos a voz grave, ninguém imaginava que era um jovenzinho falando.

Foi um bom treinamento

Líamos as propagandas e os bilhetes das moças e rapazes que ofereciam músicas a quem lhes interessava: “Este é o serviço de alto-falante que abrilhanta as festividades da quermesse da igreja Nossa Senhora das Graças. Agora vamos ouvir, na voz de Bobby Solo, a música Se piangi, se ridi, que o rapaz de blusa azul oferece à moça de vestido florido.”

Era só uma brincadeira para passar o tempo. Ao discutirmos esse assunto, descobrimos que essa experiência foi fundamental na nossa carreira de palestrantes. Ali aprendemos a ouvir o som da própria voz, aprimorar a dicção, falar de maneira pausada e dar ritmo às apresentações.

As minhas leituras prazerosas

Assim, melhoramos a qualidade da voz, aperfeiçoamos o vocabulário e nos desinibimos. Todos esses recursos entram em cena quando falamos diante da plateia. O que parecia, na época, apenas um passatempo divertido era, na verdade, um importante treinamento para o nosso futuro.

O meu hobby preferido é colecionar livros antigos de oratória em português. Passo madrugadas folheando essas preciosidades do meu acervo. Tenho, provavelmente, mais livros com discursos de advogados do que muitas faculdades de direito.

Os oradores advogados

Sem nenhuma finalidade prática. Apenas para descobrir como esses brilhantes profissionais desenvolviam sua linha argumentativa e como refutavam objeções espinhosas. Em certos casos, prevendo que enfrentariam resistências na exposição dos argumentos, desde o início, sutilmente, já minavam a posição contrária, que só se evidenciaria mais à frente.

Não sou advogado. Por que, então, me interessar por esse tipo de literatura? Nada além de prazer e deleite pessoal. Quando surgiu a oportunidade de escrever um livro de oratória para advogados, a obra estava praticamente pronta. Bastou aplicar, em cada técnica de comunicação, os exemplos que encontrara nas leituras ao longo de todos aqueles anos.

Os oradores do púlpito

Como curiosidade, o livro “Oratória para advogados e profissionais do direito” é hoje, com mais de 100 mil exemplares, a minha publicação que mais vende entre os 39 títulos que publiquei. Recebeu a chancela da OAB de São Paulo e do Conselho Federal da OAB.

Além dos advogados, foram grandes oradores também os pregadores religiosos. Os famosos sermões de Vieira, Spurgeon, Monte Alverne, Bossuet, Calvino, Manuel Bernardes, entre outros, fazem parte desse acervo. A exemplo do que ocorreu com os advogados, quando a minha filha Rachel Polito e eu resolvemos escrever o livro “Aprenda a falar em público com os melhores pregadores da história”, também já estávamos com meio caminho andado. Hoje é uma obra utilizada por pregadores de todo o país e até do exterior.

Nunca é perda de tempo

Nenhuma dessas atividades teve, no momento em que foi realizada, qualquer significado prático para a minha carreira. Com o tempo, ficou claro, entretanto, que tudo o que é feito com prazer e paixão um dia poderá ser útil para a nossa vida. Essa experiência acumulada, associada a outras habilidades, acaba por produzir resultados inimagináveis e positivos. Max Gehringer e eu sempre temos dessas histórias para contar.

Steve Jobs dizia que não é possível conectar os pontos olhando para frente, apenas olhando para trás. E você, já parou para pensar nas atividades que julgava inúteis, mas que hoje ajudam a moldar quem você é?

Porque, muitas vezes, o que parece perda de tempo é apenas o futuro se preparando, em silêncio. Siga pelo Instagram: @polito

 

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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