Bolsonaro ajusta o tom do discurso diante dos embaixadores

Em reunião no Palácio da Alvorada, presidente da República criticou ministros do STF e falou sobre possibilidade de fraude nas eleições

  • Por Reinaldo Polito
  • 21/07/2022 09h00
Alan Santos/PR - 14/06/2022 Bolsonaro Reunião de Bolsonaro com embaixadores ocorreu na segunda-feira, 18, e teve transmissão da TV Brasil

Havia grande expectativa para a apresentação que o presidente Jair Bolsonaro faria aos cerca de 40 embaixadores na segunda-feira, 18. Nas semanas precedentes o chefe do Executivo deu a entender que a sua exposição seria verdadeira bomba. Insinuou que mostraria provas de que as últimas eleições no Brasil não foram limpas. Os bolsonaristas esfregaram as mãos. Opa, agora o presidente vai acabar de uma vez por todas com esses ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que teimam em defender as urnas eletrônicas! A oposição chiou aqui e ali, mas demonstrava preocupação. Afinal, o que esse cara vai aprontar? Por mais que duvidem da competência desse ex-deputado do baixo-clero, sabem que ele se cerca de gente bem preparada. Será que ele tem mesmo alguma carta na manga? No mínimo ficaram apreensivos.

Os embaixadores não seriam apanhados desprevenidos. Com certeza, monitoraram os pronunciamentos feitos pelo presidente nos últimos dias, especialmente aqueles em que ele mencionava o encontro programado. Nas conversas com os apoiadores no cercadinho do Palácio do Planalto, ele dava indicações do que iria abordar: as eleições de 2014 que, segundo suas palavras, foram vencidas por Aécio Neves (PSDB). Mencionaria ainda o pleito de 2018, que embora tenha vencido, estava sob suspeita, pois tinha certeza de que fora eleito no primeiro turno. Além de outras questões.

Em todos os momentos Bolsonaro garantiu que não faria suposições, mas sim se restringiria a dados irrefutáveis, apontados no relatório da Polícia Federal (PF) e pelo próprio TSE. Bem, se as informações estavam apoiadas em provas, a reunião tinha tudo para ser mesmo um verdadeiro tsunami. Quem conhece as funções de um embaixador sabe que, embora ele deva resolver problemas, faz de tudo para não se meter em encrenca. Essa reunião poderia ser vista como cacho de marimbondos. Se pudessem se ausentar, provavelmente, se ausentariam. Seria, entretanto, uma desfeita para o governo do país onde atuam.

Os que compareceram ao evento estavam rezando, portanto, para não pôr a mão no vespeiro. Independentemente de gostarem ou não, de concordarem ou não com o discurso do primeiro mandatário brasileiro, deveriam permanecer contidos, como se fossem jogadores de pôquer. Bolsonaro tinha consciência desses fatos. Como tem sido muito bem assessorado pelo ministério das Relações Exteriores, não correria o risco de meter os pés pelas mãos. E assim fez.

A sua apresentação foi equilibrada. Falou como se estivesse conversando de maneira animada com cada um dos embaixadores em seu gabinete. Em nenhum momento alterou a voz. Não fez gestos bruscos. Não se exaltou. Desde o início até o final discursou com tom ajustado à circunstância. Essa questão é muito relevante. Uma coisa é falar empolgado para a massa no 7 de setembro, outra, distinta, é se expressar pianinho diante dos representantes de 40 países.

Iniciou falando da grandeza do Brasil. Em seguida fez um rápido histórico da sua atuação. Garantiu que todas as informações estavam documentadas. Que desejava eleições limpas e transparentes para o país. Mencionou a precariedade das urnas utilizadas aqui e em apenas mais dois países. Exceto os dois, se é que estavam presentes, os outros devem ter pensado: verdade, nós temos método diferente.

Após esse preâmbulo discorreu sobre o relatório da Polícia Federal, que havia apurado a presença de um hacker durante cerca de oito meses nos computadores do TSE.  Que esse invasor teve acesso a tudo dentro do tribunal, inclusive aos milhares de códigos-fonte, e até à senha de um ministro e de várias outras autoridades. Revelou ainda que depois de sete meses alegaram que os Logs já haviam sido apagados.

Criticou os ministros Luís Barroso, Edson Fachin e Alexandre de Moraes. Nesse caso, acusou Fachin de libertar Lula e torná-lo elegível depois de ter sido condenado em três instâncias por unanimidade. Deixou claro que Lula não foi inocentado, mas sim descondenado. O momento em que deu mais ênfase foi quando falou que as Forças Armadas foram convidadas para participar de uma comissão de transparência eleitoral, e que não se meteram no processo. Apenas atenderam a um convite feito pelo TSE.

No final, recebeu aplausos da maioria. Não houve entusiasmo por parte dos embaixadores, mas também não foram impassíveis. A impressão foi a de que saíram de lá aliviados. Não precisariam concordar nem discordar. Não teriam obrigação de dar opinião se as informações estavam certas ou erradas. O objetivo de Bolsonaro, porém, foi atingido. Talvez nem mesmo os embaixadores tenham se dado conta do fato. Há meses grupos que fazem oposição ao presidente têm promovido reuniões nos mais diferentes países para acusar Bolsonaro de estar preparando um golpe. Dessa forma, ainda que ele seja reeleito, estaria tudo pronto para levantar suspeitas de que a sua eleição foi manipulada.

Com essa reunião, pretendeu alertar de que ele sim poderia estar sendo vítima de um golpe. Assim, vencendo as eleições, teria afastado esse discurso dos opositores e conquistado a adesão da comunidade internacional. Um verdadeiro jogo de xadrez em que as peças começam a se mover. Um jogo que só termina quando o rei for capturado. Até lá muitos peões, torres, bispos, cavalos e a rainha estarão prontos para se sacrificar em sua defesa. Siga pelo Instagram: @polito

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.