Lula com 45%, Bolsonaro com 24% e Moro com 9%: resultado é espantoso, mas até que ponto reflete a verdade?

Quem pensa ter o domínio da opinião pública é ingênuo ou mal-informado; ninguém pode prever hoje como se comportará o eleitorado amanhã

  • Por Reinaldo Polito
  • 10/02/2022 09h00
ANDRÉ RIBEIRO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - 29/01/2022 Em pé, de perfil, com os olhos cerrados e o braço direito levantado, Lula discursa ao lado de m banner que tem a imagem de uma criança, em tamanho gigante, com o braço igualmente levantado O ex-presidente Lula lidera as pesquisas para a eleição presidencial de 2022

Uma nova rodada de pesquisas foi realizada pela Genial/Quaest entre os dias 3 e 6 de fevereiro, com 2 mil pessoas. O resultado é espantoso. Mostrou Lula com 45%, Bolsonaro com 24% e Sergio Moro com 9%. Ao apontar Lula com quase o dobro de intenções de votos com relação a Bolsonaro, os eleitores poderiam pensar: ok, as eleições já estão decididas. Podem aclamar Lula como presidente, e vida que segue. Falar de pesquisas eleitorais, entretanto, significa transitar pelo imponderável. Consideremos alguns fatores antes que bolsonaristas e moristas (será que existe esse adjetivo?) joguem a toalha e fiquem resignados com o resultado. 

Um ponto a ser observado é o fato de que muitos julgam ser difícil acreditar nesses números. Alguns, porque acham mesmo que não sejam autênticos. Outros, porque supõem que, ainda que expressem a verdade, talvez os dados estejam viciados na origem, no critério adotado para a formulação das perguntas. Vamos imaginar, todavia, que Saci Pererê exista e que a realidade seja essa. Sabemos que as pesquisas são apenas a fotografia de um momento. Ainda mais nas circunstâncias atuais em que a campanha para valer nem começou. E, por aquilo que estamos observando nesses pronunciamentos prévios, quando for dada a largada, assistiremos a uma briga de cachorro grande. 

Não seria impossível, por exemplo, que, dependendo dos acontecimentos, Lula ou Bolsonaro nem cheguem ao segundo turno. Lógico que é uma hipótese pouco provável, mas não impossível. Quem pensa ter o domínio da opinião pública é ingênuo ou mal-informado. Luiz Alberto Farias na sua obra “Opiniões Voláteis – Opinião Pública e Construção de Sentido”, ao buscar o esclarecimento do conceito de “opinião”, cita Bourdieu: “Alguns autores preferem colocar em xeque a ideia de opinião e questionar a metodologia para que se chegue ao seu reconhecimento, por conta de se entender que a opinião não possa ser fruto das pesquisas e que essas, seja por aspectos técnicos, seja por vieses intencionais podem gerar desvios informativos e interpretativos”.

Não é, portanto, questão de querer ou não acreditar nesses resultados apenas por ideologia ou preferências políticas, mas sim com base na noção de que, por um ou outro motivo, esses equívocos podem estar presentes. Jean Baudrillard foi outro autor que afirmou ser impossível prever o comportamento das massas. Ele defende que a massa deseja o espetáculo, mas, da mesma forma como comparece ou se manifesta favorável ou contrariamente a um determinado conteúdo por causa do seu revestimento estético, nada garante que esse mesmo comportamento poderá ser mantido em outras circunstâncias. Ou seja, ninguém pode prever hoje como se comportará o eleitorado amanhã.

Talvez não seja por outro motivo que, em eleições recentes, candidatos que não possuíam nenhuma chance de vitória quase às vésperas das votações, supreendentemente, foram eleitos. Enquanto outros, que já comemoravam a conquista, naufragaram. Só para citar alguns casos conhecidos, foi assim com Bolsonaro vencendo a campanha presidencial, e Dilma perdendo o Senado em Minas Gerais. Assim sendo, ainda não é momento para os lulistas soltarem fogos, nem para bolsonaristas ou moristas enrolarem a bandeira e abandonarem a arena. Ganhar uma eleição não é simples. Só os altamente qualificados conseguem essa proeza. E quando falo em altamente qualificados não estou me referindo à formação acadêmica ou ao preparo intelectual. Se assim fosse, esses mesmos Lula e Bolsonaro, que hoje despontam nas pesquisas, jamais teriam vencido eleições. Essa habilidade está relacionada à competência que o candidato precisa ter para tocar a emoção e a mente dos eleitores.

O desafio já começa quando se defrontam com o desinteresse de quem vai votar. Ainda que a política esteja na roda de conversa de muitos brasileiros, a verdade é que boa parte da população se cansou de ouvir tantas mentiras e promessas não cumpridas. Alguns candidatos até possuem boa capacidade de comunicação. Sabem estruturar bem a sequência do raciocínio. Falam com emoção. Usam argumentos que poderiam ser persuasivos e convincentes. O problema é que, antes de abrirem a boca, os ouvintes já fecharam os ouvidos. Temos de considerar também que os tempos são outros para as campanhas eleitorais. Estamos vivendo um momento nunca antes experimentado pelos políticos. O fato de terem vencido eleições passadas não é garantia de que nas próximas também sejam bem-sucedidos. Vemos, nos pleitos que se sucedem, velhos políticos que se acostumaram com resultados favoráveis nas urnas serem abandonados pelos eleitores que julgavam fieis. 

Os meios para que os candidatos cheguem aos eleitores são diferentes daqueles utilizados nas eleições anteriores. Há políticos que, mesmo bem assessorados, ainda engatinham no domínio das mídias sociais. Ficam assustados e se sentem impotentes para manusear as novas tecnologias. Em vez de procurarem aprender, se acomodam. Preferem se colocar na posição de vítimas e ridicularizar quem se vale dessa preciosa ferramenta. Há nas campanhas desses novos tempos alguns fatores que são fundamentais para que um candidato vença as eleições: estar atualizado com as aspirações de um eleitorado cada vez mais exigente e bem informado. Dominar uma linguagem natural, objetiva e desembaraçada. 

Por mais instruído que esteja o eleitor, a maioria ainda não consegue entender os temas mais complexos e abstratos. O que Lutero ensinava aos pregadores serve para a comunicação do político: “Quem vem à igreja são pobres crianças pequenas, empregadas, mulheres e homens idosos, para os quais a alta doutrina não é de proveito algum, pois eles não a compreendem. Ao pessoal simples é preciso dizer branco é branco e preto é preto, de modo bem singelo, com palavras claras – e mesmo assim, quase que não entendem”. Essa competência para falar a linguagem que as pessoas entendem pode até ser aprendida, mas leva vantagem aquele que ao longo da vida, errando e acertando, desenvolveu essa espécie de dom natural de comunicação que envolve as massas e convence os eleitores a decidir pelo seu nome, muitas vezes até quando já estão ali diante da urna. Temos que olhar, portanto, essas pesquisas sem euforia ou desânimo, pois daqui a alguns meses, provavelmente, estaremos tão perplexos com os resultados das eleições como ficamos agora ao analisar as projeções feitas pelos institutos nos últimos pleitos. Erraram em quase todas as previsões. Siga pelo Instagram: @polito.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.