Milton Ribeiro pode dar a volta por cima

Se o agora ex-ministro da Educação for mesmo o homem de bem que imagino que seja, é possível que em breve tudo se esclareça e talvez possa retornar ao cargo

  • Por Reinaldo Polito
  • 31/03/2022 08h00
Isac Nóbrega/PR - 16/07/2020 O ministro da Educação, Milton Ribeiro, durante pronunciamento Milton Ribeiro deixou o Ministério da Educação após divulgação de suposto esquema de favorecimento de pastores

Durante muitos anos acreditei que alguns de nossos representantes políticos estavam sendo sinceros. Com o passar do tempo as máscaras foram caindo e, para minha indignação, a verdade foi revelada. Jamais duvidei que Fernando Henrique Cardoso não falasse exatamente o que sentia. Abracei sua causa. E ai de quem ousasse criticá-lo! Da mesma forma, eu estava convicto de que Geraldo Alckmin tinha um ideal admirável e lutava com todas as forças para defendê-lo. Acompanhei muitos de seus pronunciamentos e quase todos os debates dos quais participou. Cheguei a publicar textos elogiando seu desempenho.

Embora nunca tenha votado em Lula, acreditei nas suas propostas para a construção de um país melhor. Em boa parte do seu primeiro governo admirei muitas de suas ações. Dava a impressão de que as atitudes que tomava respaldavam os discursos que proferiu ao longo da vida. Quebrei a cara com essa turma. A respeito de Lula nem preciso comentar. Os fatos falam por si. Quando vi Fernando Henrique defendendo a permanência de Dilma na presidência, pensei, opa, que história é essa? Será que é o mesmo FHC que defendi com unhas e dentes? Sua tese era a de que processos de impeachment poderiam desgastar a democracia do país. As urnas seriam o melhor caminho para solucionar os casos.

Minha crença, entretanto, resistia. Até o momento em que vi sua luta para tirar o presidente Bolsonaro do poder. Ele disse: “Renuncie antes de ser renunciado. Poupe-nos de, além do coronavírus, termos um longo processo de impeachment”. Nessa hora me senti um idiota. Quer dizer que aquela defesa que fazia de Dilma, até afirmando que se tratava de uma mulher inteligente, bem-preparada, honesta era só uma questão ideológica? Fui tapeado esse tempo todo?

E agora, mais recentemente, minhas dúvidas foram totalmente eliminadas. Tive de me beliscar quando o presenciei dizendo que apoiava Lula para a Presidência. Ou seja, aquelas brigas todas que os dois protagonizaram era tudo fachada? Só estavam esquematizando uma alternância no poder? Os discursos recentes de Alckmin elogiando Lula e aceitando o convite para ser o vice na chapa do ex-presidente me chocaram. Não é possível que seus pronunciamentos dizendo que Lula só queria voltar à cena do crime eram apenas palavras! Era tudo da boca para fora. Ou será que naquela época ele dizia a verdade, e agora mudou de ideia? Não importa. Ou foi falso antes ou está sendo agora. Perdeu a confiança.

Estou sendo posto à prova com a história do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro. Acompanhei todo o caso. Li as denúncias que pesam contra ele. Ouvi as gravações com os alegados pedidos de favorecimento. Analisei a opinião dos especialistas. Assisti às suas entrevistas. Enfim, fiz um curso completo de Milton Ribeiro. Acompanho a opinião do relator, presidente Bolsonaro, quando diz que coloca a cara no fogo pelo seu ministro. Durante as entrevistas Ribeiro não se abalou em nenhum momento. Teve sempre a resposta serena e equilibrada para todas as questões formuladas. Nunca deixou nenhuma denúncia sem investigação. Basta dizer que desde a sua posse na pasta mandou 730 prefeitos para o Tribunal de Contas da União (TCU) para apurar possíveis irregularidades.

Sobre as denúncias de intermediação no seu ministério, após ouvir comentário de que esses fatos poderiam estar ocorrendo, explicou: “Em agosto do ano passado marquei reunião com o ministro da CGU, entreguei o documento e pedi a investigação. Ele disse que iria instaurar uma investigação sigilosa”. Pediu para deixar o cargo e assim não atrapalhar as investigações. Se for mesmo o homem de bem que imagino que seja, é possível que em breve tudo se esclareça e talvez possa retornar ao cargo.

Há precedente. Em 1993, Henrique Hargreaves, ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República do governo Itamar Franco, foi acusado de cometer irregularidades no cargo. Pediu demissão para não interferir nas investigações em andamento. Ao ser considerado inocente pela CPI, no início de 1994, foi convidado por Itamar a retornar ao cargo. Sei que corro o risco de estar abraçando uma causa que “me queimará a cara”. Prefiro confiar nos meus instintos e acreditar que ele diz a verdade. Logo saberemos. Siga pelo Instagram:@polito

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.