Não existe almoço grátis: jantar entre Lula e Alckmin mostra que tudo é possível na política

Por mais apaixonados pelos personagens que sejam os convidados, se procurarmos lá no fundo, talvez seja possível descobrir o que levou tanta gente a um restaurante paulistano na noite do último dia 19

  • Por Reinaldo Polito
  • 30/12/2021 10h43
Aloisio Mauricio/Fotoarena/Estadão Conteúdo - 19/12/2021Apesar da aproximação entre Lula e Alckmin, eleitores de ambos os lados torcem o nariz

O jantar promovido no domingo, dia 19, para juntar Lula e Alckmin, já teria desaparecido do mapa se não fosse requentado à exaustão. É mais ou menos como briga de casal. Cada vez que um cônjuge resgata motivos de desavenças passadas, dá a impressão de que o fato, embora aparentemente adormecido no tempo, ressurge como se estivesse ocorrendo naquele momento, até com mais intensidade. Verdade. Toda vez que alguém toca no assunto desse bendito jantar, e o que não falta é gente trazendo à baila detalhes do encontro que passaram despercebidos nas notícias anteriores, parece que os fatos são inéditos, que se dão naquele novo instante.

São conversas mais ou menos assim: “Fiz uma rápida contagem e fiquei surpreso. Estavam presentes no jantar representantes de nove partidos diferentes!”. “Até o Arthur Virgílio, aliado de Doria na campanha de 22, deu as caras no encontro”. “Você sabia que estiveram presentes no convescote de luxo mais de 500 pessoas?”. E aí vem a relação da turma graúda que compareceu para abraçar os até então, aparentemente, inimigos políticos. Só para citar alguns: Gleisi, Haddad, Kassab, Maia, Aziz, Randolfe, Renan. Bem, daria para completar um álbum com essas figurinhas carimbadas. E a pergunta que não quer calar: quem pagou o rango? Sim, sabemos que a promoção foi do grupo Prerrogativas, formado por advogados. Como é sabido, entretanto, que não existe almoço grátis, a questão é mais profunda: quem se beneficiará desse “investimento”? Haveria, por trás da comilança, um motivo camuflado? Você sabia que há pesquisas sérias sobre as consequências das confabulações que ocorrem durante uma refeição?

De onde vem, afinal, essa máxima? Ainda que não exista confirmação da origem dessa frase, uma das explicações é a de que a expressão “almoço grátis” era usada por bares americanos, que, no século XIX, costumavam não cobrar a comida dos clientes que consumiam bebida. Será que não existe mesmo almoço grátis? Os pesquisadores Keyer e Kirschner desenvolveram interessante estudo sobre esse tema na Universidade de Yale. E para não haver dúvidas, a observação foi realizada duas vezes. Eles queriam saber se era mais fácil persuadir uma pessoa durante a refeição. Será que a resistência do eleitor, do cliente, do julgador, poderia ser enfraquecida, e, assim, desarmados, ficariam mais suscetíveis a comprar o produto ou votar em determinado candidato?

A pesquisa contou com 216 participantes. As pessoas foram separadas em três grupos. Um leu mensagens persuasivas enquanto comia e bebia. Outro ouviu a mesma mensagem sem nenhuma alimentação. E o último, grupo de controle, não foi submetido a mensagens persuasivas importantes. As opiniões de cada participante foram registradas em questionários que responderam antes e após a experiência. As questões foram cuidadosamente elaboradas para medir se ocorreriam alterações em sua maneira de pensar. Foram apresentadas quatro mensagens persuasivas para cada grupo. Conclusão: a pesquisa confirmou que as pessoas que se submeteram às mensagens persuasivas enquanto se alimentavam mudaram mais de opinião. Foram persuadidas com mais facilidade que as que não se distraíram com bebidas e alimentos. 

Um estudo posterior realizado por J. Dabbs e I. Janis confirmou as mesmas conclusões, com uma informação adicional: o processo de persuasão apresenta resultados mais efetivos no momento em que as pessoas estão se alimentando. Ou seja, os contratos, as propostas, os acordos devem ser combinados entre uma garfada e outra. Passado o momento, já fica mais difícil. Noves fora nada – não existe mesmo almoço grátis. A dúvida se justifica no caso do jantar do dia 19. Gente que se estapeava até há pouco tempo, de uma hora para outra resolve levantar a bandeira branca e se jogar na mesma trincheira? Por mais apaixonados por Lula e Alckmin que sejam os convidados ao surreal jantar, se procurarmos lá no fundo, talvez seja possível descobrir o que levou tanta gente ao restaurante que, naquela noite, mais se assemelhava a uma arca de Noé. Siga pelo Instagram: @polito.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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