O desfile que homenageia Lula e a ‘autoconspiração’
Quando surgem questões de difícil resposta e até mesmo incompreensíveis devido à sua complexidade, há quem recorra a interpretações mais extravagantes
Você acompanhou os debates sobre a homenagem que a escola de samba Acadêmicos de Niterói prestou ao presidente Lula no desfile na Marquês de Sapucaí. Sobrou bate-boca por todo lado, desde os evangélicos até os partidos políticos. Tema que ainda deve render muita discussão.
Os evangélicos se mostraram incomodados porque uma das alas da escola apresentou a alegoria “Neoconservadores em Conserva”, com referências à Bíblia e às famílias tradicionais. As fantasias mostravam uma lata de conserva
defendendo a família tradicional, contendo um homem, uma mulher e os filhos.
Propaganda antecipada
A oposição ao governo afirma que tudo não passou de propaganda antecipada às eleições presidenciais deste ano. A legislação eleitoral impõe limites à pré- campanha, sobretudo quando há elementos que possam ser interpretados
como promoção indireta de candidatura. Segundo a imprensa, oposicionistas anunciaram ao menos uma dúzia de ações judiciais questionando o desfile.
Por outro lado, governistas sustentam que se tratou de uma simples homenagem cultural, sem qualquer vínculo com propaganda eleitoral. Uma das autoras do samba-enredo, Teresa Cristina, explicou em tom de defesa: “Não
pensei em nenhum momento que era ano de eleição. A gente fez esse samba ano passado, o enredo tinha sido escolhido para contar a história de Lula, sob a ótica da mãe”.
Terreno movediço
A contenda é feroz. No limite, adversários levantam até questionamentos extremos que poderiam atingir sua elegibilidade e afastá-lo do pleito de outubro, ainda que essa possibilidade seja considerada remota. Ora, se existe
esse risco, ainda que distante, por que se expor a um terreno tão movediço?
Quando surgem questões de difícil resposta e até mesmo incompreensíveis devido à sua complexidade, há quem recorra a interpretações mais extravagantes, quase sempre formuladas por figuras que veem os acontecimentos por trás das aparências. É o caso de um personagem excêntrico chamado Brasteco, que vê conspirações até na própria sombra.
Crescimento consistente
– Brasteco, como você explica Lula ter se exposto a um possível questionamento jurídico por causa de uma homenagem carnavalesca?
– Você deve estar acompanhando as pesquisas eleitorais. Observou também que o nome de Flávio vem crescendo de forma consistente desde que passou a ser cogitado como pré-candidato. Partiu de cerca de 5% no início de dezembro e, em alguns levantamentos mais recentes, já aparece em empate técnico no segundo turno, enquanto Lula se mantém estável há meses.
– Sim, mas o que isso teria a ver com o desfile de uma escola de samba? Não
parece um salto interpretativo grande demais?
Cálculo arriscado
– Explico. Com o apoio de lideranças relevantes e a migração gradual de eleitores de perfil conservador, a tendência, segundo algumas leituras políticas, seria de crescimento do adversário, enquanto o presidente enfrentaria maior
desgaste.
– Ainda assim, você não acha que está vendo sombras demais nessa caverna? Uma homenagem carnavalesca, por mais polêmica que seja, dificilmente seria planejada como estratégia para provocar questionamentos sobre elegibilidade. Isso seria um cálculo arriscado demais, até para um cenário político tão tenso quanto o atual.
Brasteco hesita por um instante, ajusta a barbicha e responde, em tom mais ponderado.
– É possível. Posso estar exagerando. A política real costuma ser menos conspiratória do que imaginamos. Mas que toda essa história, cercada de polêmicas, ações judiciais, repercussão eleitoral e simbolismos, tem um leve cheiro de “autoconspiração”, isso tem.
Pedidos no forno
Veja, por exemplo, o que informou o Partido Novo: pretende pedir a inelegibilidade de Lula por abuso de poder político e econômico, sob o argumento de que recursos públicos teriam sido utilizados para promover a
imagem do presidente.
– Espere aí. Você está baseando sua tese em um pedido que será feito por
uma legenda de oposição?
– Se fosse apenas uma sigla isolada, eu daria razão a você. Mas há uma
enxurrada de ações em várias frentes, chanceladas também por setores
oposicionistas.
– Mas esse é justamente o papel da oposição: arrumar encrenca com o
governo na tentativa de desgastá-lo politicamente. E qual seria a vantagem
para Lula?
Saída honrosa
Ele dá de ombros, como quem admite a dúvida sem abandonar completamente
a suspeita.
– Pode ser. Mas, se eu não estiver viajando demais, penso que a
inelegibilidade seria uma saída honrosa para não enfrentar o risco de uma
derrota eleitoral.
– Brasteco, sempre me divirto com suas elocubrações, mas desta vez você foi
longe demais. Imaginar que o presidente esteja armando uma
“autoconspiração” apenas para não sair derrotado nas eleições!
– Deixa essa história andar mais um pouco, depois voltamos a conversar. Mas
que tem jeito de armação, tem.
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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
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