Políticos podem se complicar quando demonstram ser o que não são

Nesta época de pré-campanha eleitoral, jamais diria que Moro fala o que não sente, Ciro é um vira-folha, Bolsonaro não cumpriu promessas, Doria é oportunista e Lula gosta de ditaduras

  • Por Reinaldo Polito
  • 20/01/2022 09h00 - Atualizado em 20/01/2022 09h57
pch.vector - br.freepik.com Desenho com dois candidatos, ambos loiros, debatendo É possível que algumas inverdades sejam ditas durante a corrida eleitoral deste ano

Estamos em época de pré-campanha eleitoral. Pois é, nem começou a fase oficial dos discursos e os políticos já arregaçaram as mangas e botaram o pé na estrada. É o período em que gastam a sola do sapato em busca de votos. Pelo que temos observado nas palavras de um e de outro, vamos ouvir muitas inverdades por parte de alguns candidatos. “Inverdades”?! Por que não dizer “mentiras” logo de cara para tornar tudo mais claro? Bem, nessa época de caça às bruxas, em que as pessoas vivem com lupa procurando deslizes de quem fala ou escreve, todo cuidado é pouco. Naturalmente, estou exagerando, pois se não dissermos o que pensamos, seria preferível não dizer.

Certos cuidados, entretanto, são recomendáveis. Essa aprendi com o Ferreira Neto, que foi um conhecido apresentador de televisão. Ele tratava de temas políticos. Em uma conversa, ele me disse: “Polito, seja prudente com o que você fala ou escreve. Por exemplo, nunca diga que os políticos são ladrões, já que vai correr o risco de receber um processo pela generalização. Fale que alguns políticos são ladrões. Primeiro, porque nem todos são larápios, e, por isso, não poderíamos colocá-los indistintamente no mesmo pacote. Depois, deixará assim uma porta aberta para a defesa: eu não estava me referindo à Vossa Excelência”.

Rimos muito daquela aula prática, mas levei a sério suas recomendações. Ainda mais hoje, com essa praga do cancelamento, não sobra pedra sobre pedra. Embora, sem saber bem o motivo, tenho a sensação de que, em futuro não muito distante, a turma vai se cansar dessa perseguição e entenderá que, ao aderir a essa prática, só estará fazendo papel de manada. Não é por outro motivo que, ao comentar a respeito da comunicação dos candidatos, é preciso ficar vigilante. Eu jamais diria, por exemplo, que o Moro está falando o que não sente. Nunca afirmaria que, ao atacar Bolsonaro e poupar Lula e o STF de suas críticas, está só lançando mão de um expediente politiqueiro. Se ele atuou tantos anos na condenação do petista e foi ridicularizado pelo Supremo, que o desqualificou na Operação Lava Jato, esses deveriam ser os seus alvos. E não Bolsonaro, que elogiou o tempo todo enquanto ocupou o cargo de ministro. Ah, e para queimar a minha língua, não é que, depois de ter sido chamado de canalha pelo petista, disse que Lula seria derrotado?!

Também não seria ingênuo de falar de Ciro Gomes. Estaria caminhando no fio da navalha se dissesse que ele é um vira-folha, pois desce o pau no Lula quando é conveniente, mas passa pano quando tem outros interesses. Não, nesse vespeiro não mexo. Ainda mais ele que é um cara louquinho para arrumar confusão. Ah, esse comentário final também não faço. Guardo para mim. Da mesma forma, eu entraria em tremenda confusão se dissesse que Bolsonaro não cumpriu suas promessas de campanha quando dizia que não “se venderia” ao sistema político. Primeiro porque os bolsonaristas iriam se enfurecer, alegando que ele não se vendeu, apenas precisou arrumar um partido político para se candidatar, pois a legislação eleitoral determina esse requisito. E mais, se não se aproximasse do centrão, estaria a um passo de ser impichado. Está vendo o motivo de eu não participar dessas divididas?

E o Doria também não pode ser criticado? De jeito nenhum. Eu caminharia para um abismo sem volta se dissesse que ele é um oportunista. Que traiu quem lhe deu a mão, como se fosse um padrinho, para que ingressasse na política. E que, na primeira oportunidade, virou as costas para quem o projetou. E não mencionaria o fato de ter surfado na onda bolsonarista como meio de conseguir os votos de que precisava para conquistar o governo de São Paulo. Não, esses fatos não aponto para evitar atritos com gente poderosa. Não vai falar do Lula? Por enquanto não, porque o ex-presidente está pianinho, discursando mais no exterior que aqui. Mas não perca por esperar. Já, já ele estará na mira. Quando chegar o momento, não vou me referir aos motivos de sua prisão, nem aos elogios que fez a governos ditatoriais, nem de sua vontade louca de regular a mídia, muito menos de sua proposta de acabar com a nova lei trabalhista. Vou esperar para me manifestar.

Há pouco li uma notícia curiosa. Na Coreia do Sul estão limitando fotos com máscara nos aplicativos de namoro ou de relacionamento, como o Tinder, por exemplo. O objetivo da restrição é evitar que as pessoas se decepcionem com a realidade. Ou seja, os feios estão com os dias contados. Embora a “propaganda enganosa” não seja novidade nesses apps, com a máscara piorou. Alguns passaram a vender a noite como se fosse o dia, e vice-versa. O mesmo ocorre com certos políticos (viu como aprendi a lição do Ferreira Neto?!). Dizem que são como gostariam de ser, ou como gostariam que os eleitores os vissem, quando só estão usando uma máscara para disfarçar suas verdadeiras intenções. Abertas as urnas, tiram o disfarce e mostram sua face autêntica. Portanto, para me resguardar, vou me valer sempre que possível da preterição, uma figura de linguagem usada para que a pessoa diga que não vai dizer, quando, ao agir assim, já está revelando o que queria informar. Dessa maneira, nunca vou dizer, por exemplo, que os políticos mentirosos poderão se complicar quando seus objetivos camuflados forem desvendados. E que, com as mídias sociais atuantes, a queda dessas máscaras será cada vez mais frequente. Por isso, me calo. Só que não. Siga pelo Instagram: @polito.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.