A conexão com a família: Um dos principais desafios das escolas para 2021

A pandemia mostrou que a família e a escola precisam estar juntas para promover uma educação de qualidade e em condições para que as crianças enfrentem o futuro com mais segurança e preparo

  • Por Renato Casagrande
  • 28/12/2020 16h21
EFE/EPA/FELIPE TRUEBAÉ fundamental que a escola tenha um excelente relacionamento com as famílias, para que juntos possam encontrar melhores e eficazes caminhos para uma boa formação das crianças e jovens

Realmente o mundo mudou muito nos últimos anos, principalmente neste em que a pandemia destruiu muitas convicções e certezas. Mudou tanto que os pais, antes com certeza de como educar seus filhos e muito mais segurança nos resultados que obteriam nessa educação, acabam por confessar não terem mais tanta convicção. Manifestam, sempre mais, muitas e grandes inseguranças de como conduzir a educação dos seus filhos. Não sabem, muitas vezes, nem mesmo avaliar a escola e o método de ensino adequado. Tem grandes dúvidas se devem incentivar ou não a prática de sua religião, ou deixarem o jovem escolher o caminho que estiver mais alinhado com seus interesses e suas crenças.

Enfim, muitos pais estão percebendo, pouco a pouco, os seus limites. Percebendo sua impotência, sua incapacidade e seu desconhecimento quanto as orientações mais eficazes que podem dar ao filho para garantir a ele sucesso na sua vida futura. É lógico que é dever da família ensinar valores, virtudes, desenvolver senso de justiça, de generosidade, de compaixão, mas sabemos que isso não é suficiente. A influência que as crianças e os jovens estão tendo no fenômeno da globalização está, muitas vezes, superando em partes o modelo de educação ao qual as famílias e a escola estão acostumadas. Há um provérbio africano que diz que é preciso uma aldeia toda para educar uma criança. No entanto, nossa aldeia global não tem conseguido cumprir bem essa função.

Esse é também um dilema que vivem os educadores. Como preparar as crianças e jovens para um mundo de tantas incertezas e contradições? Como desenvolver a consciência crítica e prepará-los para a reflexão e a mudança de atitude, com relação aos desígnios deste novo e complexo mundo da globalização e do avanço tecnológico, sem precedentes na história da humanidade? O que os educadores podem e o que não podem fazer ou falar? Muitas dúvidas pairam no ar no que se refere ao papel dos educadores em geral, sejam pais ou professores.

Sendo assim, é mister que a escola tenha um excelente relacionamento com as famílias, para que juntos possam encontrar melhores e eficazes caminhos para uma boa formação das crianças e jovens. No mundo familiar as crianças são filhos; no mundo escolar elas são alunos. A passagem de filho para aluno não é uma operação automática e, dependendo da distância entre o universo familiar e o escolar, ela pode ser traumática. Um recente estudo realizado pela UNESCO na última década, em parceria com o Ministério da Educação, elegeu como prioridade, dentre tantas funções importantes, que a aproximação das escolas e das famílias pode ter, a recuperação da singularidade do aluno visto no seu contexto mais amplo. Percebeu-se. que, quando a escola melhora seu conhecimento e compreensão sobre os alunos, sua capacidade de comunicação e adequação das estratégias didáticas aumenta e, em consequência, aumentam as chances de um trabalho escolar bem-sucedido. Nesse sentido, a conquista da tão desejada participação das famílias na vida escolar dos alunos, deve ser vista como parte constituinte do trabalho de planejamento educacional.

Um outro estudo realizado pela Fundação Itaú Social, em 2018, que teve como foco a relação entre a família e a escola no Ensino Fundamental, apontou os principais fatores que devem ser levados em conta para essa aproximação:

  • As escolas precisam compreender a realidade dos alunos, suas especificidades e desenvolver meios de aproximação a essa realidade.
  • Abertura de espaços de diálogo com as famílias, por meio de reuniões, rodas de conversa, eventos, festas e outras atividades.
  • Implantar uma nova abordagem com a família, no sentido de acolher suas especificidades. A escola deve chamar as famílias não apenas para cobrar ou reclamar do comportamento dos estudantes. É preciso enfatizar aspectos positivos e compartilhar a produção dos alunos.
  • Melhorar as orientações com a famílias, deixando-as mais claras, respeitando o posicionamento dos pais, às vezes divergentes da escola. Essas orientações devem ser feitas tanto individualmente como coletivamente.
  • Promover a integração interna da escola por meio da promoção de um bom clima escolar adotando estratégias eficazes de gestão e a incorporação de princípios integradores em seu projeto pedagógico.
  • Chamada ativa das famílias para a melhoria dos indicadores educacionais. A escola precisa “resgatar” alunos que estão com dificuldades de desempenho e assiduidade. Recomenda-se um olhar e cuidado particular com cada aluno e também o desenvolvimento de estratégias específicas de atuação com as famílias envolvidas nessa busca ativa.
  • Elaborar e reelaborar o projeto pedagógico levando-se em conta a integração com pais e comunidade. Desenvolver projetos transversais que consigam envolver a participação ativa e o envolvimento das famílias e da comunidade escolar.
  • Pensar a escola envolvendo sempre o território ao redor e a própria rede de ensino em que a escola está inserida. A escola não pode ser pensada isoladamente. Assim, dependendo de onde a escola se localiza, o fator território pode ser mais ou menos determinante para o sucesso das suas atividades – e isso deve ser levado em consideração pelas redes. (Fonte: Itaú Social – Pesquisa Social: Família-Escola, 2018)

A pandemia veio mostrar que a família e a escola precisam, mais do que nunca, estar juntas para promover uma educação de qualidade e em condições para que as crianças enfrentem com mais segurança e preparo o futuro que está por vir. Sozinhos escola e família, ou isoladas em seu mundo, não haverá grandes progressos no desenvolvimento e formação das crianças. Isso não significa, em hipótese alguma, que os papeis são os mesmos. A escola não pode substituir a responsabilidade que a família tem. A escola tem como função principal promover e desenvolver a autonomia, a solidariedade e a formação crítica dos alunos. Mas, a responsabilidade principal da formação integral e plena do cidadão continua sendo da família e ela não pode se eximir disso. São responsabilidades complementares e que, se integradas e trabalhadas em conjunto, haverá grande favorecimento na formação dos alunos. Por fim, sabemos que as demandas são complexas e precisamos de um trabalho em equipe em que cada parte cumpra com afinco seu papel. Haverá dissensos, contradições, conflitos, mas eles serão bem menores que as consequências negativas de uma formação fragmentada, frágil e incapaz de lidar com as novas e complexas demandas que a sociedade e o mundo preveem para o futuro das nossas crianças e jovens.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.