Investimento estrangeiro dá sinal positivo, mas governo precisa agir

Em novembro, a entrada do capital estrangeiro no Brasil registra saldo de R$ 26 bilhões, mas é necessário tranquilizar os investidores sobre a nova incerteza no ar: o estado das contas públicas

  • Por Samy Dana
  • 24/11/2020 14h13 - Atualizado em 24/11/2020 14h41
Nelson Antoine/Estadão ConteúdoEm novembro, investimento estrangeiro tem saldo positivo de R$ 26 bilhões na B3, a bolsa de valores do Brasil

No ano, a saída de investidores estrangeiros da B3 é recorde. Os R$ 59 bilhões registrados até a última quinta-feira, 19, superam os R$ 44,5 bilhões em todo o ano de 2019 – o recorde anterior. Investimento estrangeiro é sinal de saúde de qualquer bolsa de valores. E também da economia do país. Já a fuga de estrangeiros é sinal de algo errado tanto no mercado de capitais como, geralmente, na economia como um todo. Mas esse resultado no momento vem acompanhado de uma boa notícia. Em novembro, o investimento estrangeiro está positivo. A última quinta-feira teve o 12º pregão consecutivo com entrada forte. E, acompanhando o fluxo de dólares, a bolsa subiu 13.5% por cento no mês. 

Estrangeiros na B3 – Novembro

  • Compras R$ 240 bilhões
  • Vendas R$ 214 bilhões
  • Saldo R$ 26 bilhões
  • No ano R$ 59 bilhões

O saldo positivo no mês é de R$ 26 bilhões, resultado de compras de R$ 240 bilhões em ações e vendas de R$ 214 bilhões. No ano, evita um cataclisma. Até outubro, a saída de estrangeiros era de quase R$ 85 bilhões. Mesmo que os R$ 59 bilhões ainda sejam a marca mais alta da história, o déficit diminuiu em quase um terço. O movimento tem sido interpretado como consequência do fim do cenário de incerteza na eleição americana, com a vitória de Joe Biden. E também da incerteza na pandemia de Covid-19, com o surgimento de várias vacinas com altíssimo potencial de eficiência, mais de 90%. Com mais risco no ar, os investidores vinham vendendo ações. Com menos incerteza no horizonte, compram. 

Conta a favor da bolsa brasileira que os pacotes de ajuda ao mercado financeiro do Federal Reserve, o banco central americano, liberados meses atrás, fizeram sobrar dinheiro. Primeiro para as bolsas dos Estados Unidos e, agora, para os mercados emergentes. Dá para dizer que o jogo virou e os estrangeiros estão voltando? Não. Para manter o fluxo, o governo vai ter que tranquilizar os investidores sobre a nova incerteza no ar: o estado das contas públicas. Com os gastos contra o coronavírus e medidas como o auxílio emergencial, os 96% do Produto Interno Bruto (PIB) que o governo prevê para a dívida federal este ano são insustentáveis para um país emergente, como o Brasil. O otimismo das últimas semanas só é possível diante da crença dos investidores nas promessas da equipe econômica de encerrar este ano o auxílio emergencial, além de levar adiante a agenda de reformas. Mas a paciência do mercado, se é um trunfo no momento, tem prazo de validade. Se o país não cortar gastos, corre o risco de ver a saída de estrangeiros continuar.