Não existe vaga grátis: o custo de estacionar nas ruas

Candidato à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL), criticou a cobrança do estacionamento no Parque do Ibirapuera; o fato é que usar o estacionamento já era pago antes – e custava mais caro

  • Por Samy Dana
  • 23/11/2020 16h37 - Atualizado em 23/11/2020 16h41
ANDRÉ LESSA/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Estacionamento pago no Parque do Ibirapuera, em São Paulo (SP). O parque teve a gestão concedida para a iniciativa privada no mês passado

No começo do mês, o candidato do PSOL, Guilherme Boulos, atualmente disputando o segundo turno da eleição em São Paulo, criticou a cobrança de pedágio no Parque Ibirapuera. O estacionamento do Ibirapuera foi concedido para a iniciativa privada em outubro, com uma empresa assumindo as 1.080 vagas. Boulos é contra. O post no Twitter em que reclama da cobrança sugere que teria começado agora. Mas o fato é que usar o estacionamento já era pago antes. E custava mais caro.

Com o estacionamento fazendo parte da zona azul da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) deixar o carro custava R$ 5 a cada duas horas, fosse dia útil ou dia da semana. Se alguém usasse a vaga por duas, fosse dia útil ou dia de semana, pagava R$ 5. Se usasse por quatro horas, custaria R$ 4, por seis horas R$ 6 e assim por diante. Agora o preço pode ser mesmo mais caro para quem usava o estacionamento só por duas horas. Nesse caso, pagaria R$ 10 ou R$ 12, dependendo do dia, contra R$ 5 antes. Mas quanto mais a pessoa fica no parque, mais a conta se inverte.

Estacionamento do Ibirapuera:

– 2 horas:
Antes R$ 5 (qualquer dia)
Agora R$ 10 (2ª a 6ª) a R$ 12 (Sáb./Dom.)

– 6 horas:
Antes R$ 15 (qualquer dia)
Agora R$ 10 (2ª a 6ª) a R$ 12 (Sáb./Dom.)

Aquelas mesmas seis horas de permanência agora vão custar R$ 10 ou R$ 12 contra R$ 15 no sistema antigo. De um lado, há um gasto maior para quem usa pouco o parque, mas o custo é menor para quem usa mais. Ainda que financeiramente pequeno, há um estímulo para aproveitar por mais tempo o Ibirapuera. Um segundo ponto sugerido pela crítica de Boulos é de que não se devia cobrar pelo estacionamento. O parque, afinal, é área pública. Esta é uma tese com muitos defensores. Mas não faltam estudos mostrando que não existem vagas realmente gratuitas. Todas têm um custo oculto. Em um livro que hoje é clássico do tema, “O Alto Custo do Estacionamento Grátis”, traduzindo o título para o português, o economista americano Donald Shoup, pesquisador de planejamento urbano, calcula que 30% por cento dos engarrafamentos nas cidades são causados por pessoas que procuram uma vaga gratuita. Para economizar no estacionamento, a pessoa circula mais, gasta mais combustível, causa poluição, fica mais tempo no trânsito e piora a qualidade de vida de todo mundo, inclusive a sua.

Shoup também estima que criar e manter uma única vaga custa US$ 2 mil, quase R$ 11 mil, e que em todos os Estados Unidos US$ 127 bilhões são gastos para subsidiar motoristas. Tente imaginar, por exemplo, quanto você gasta a mais de gasolina sendo obrigado a dirigir devagar numa rua tomada de carros parados dos dois lados. Todos no trânsito gastam mais para que os carros possam parar nesses locais. E a cidade gasta com a conservação da rua fazendo com que todos os moradores dividam a conta da vaga em vez de ser só quem estaciona nela. Em resumo, cobrar pelo estacionamento nas vias públicas faz sentido, fazendo que quem ocupa o espaço pague pelo uso, não a coletividade. Existe outra discussão, que é sobre o preço para usar a vaga. Sempre cabe discussão. Mas, na regra geral, não há como não lembrar a frase do grande economista Milton Friedman, tão conhecida que já virou clichê. “Não existe almoço grátis”. Vaga grátis? Também não.