Samy Dana: Crise provocada pela pandemia faz brasileiro poupar mais

É um comportamento conhecido em crises; se aumenta a incerteza, as pessoas poupam para se preparar para o pior

  • Por Samy Dana*
  • 28/08/2020 13h48 - Atualizado em 28/08/2020 13h49
USP imagensAs pessoas estão mais cautelosas em relação ao futuro imediato e tendem a segurar mais o dinheiro

O brasileiro está poupando mais. A falta de poupança interna sempre foi um problema no país, mas, em meio à crise, com o PIB apontando queda no ano, as despesas de uma família brasileira típica caíram e o que sobra vem sendo guardado. Segundo estudo recente do Banco Inter, as aplicações na poupança aumentaram R$ 100 bilhões. Outros R$ 16 bilhões foram para fundos de investimento, principalmente de ações e de renda fixa. É um comportamento conhecido em crises. Se aumenta a incerteza, as pessoas poupam para se preparar para o pior. Existe até mesmo o caso do Japão, que entrou em crise nos anos 90 e passou uma década com baixo crescimento porque a população se recusava a gastar.

No Brasil, não chega a tanto. Mas muitos orçamentos familiares estão reforçados pela queda de gastos a partir de março, com as medidas de isolamento, e também pelo pagamento do auxílio emergencial de R$ 600. Houve quem recebeu o auxílio, mas, como não precisava usar no momento, segurou o dinheiro e agora ou mais adiante pode gastar, ajudando na recuperação da economia. Esse cenário, o estudo sugere, deve ajudar o PIB brasileiro a crescer com mais qualidade. Nas crises anteriores, o antídoto adotado pelos governos foi estimular crédito e consumo. As pessoas realmente gastaram, beneficiando o PIB, porém, ficaram mais endividadas.

A política adotada depois da crise do subprime, em 2008, resultou no alto endividamento das famílias brasileiras, hoje rondando os 70%. E não só. Também levou a inflação anual para a faixa dos 10% e a taxa de juros para 15%. Ajudou a aumentar a dívida pública e a empobrecer a população, sempre a mais atingida quando os preços sobem. Por obra da pandemia, existe a chance de uma mudança de paradigma. A saída da crise deve ser mais lenta. As pessoas estão mais cautelosas em relação ao futuro imediato e tendem a segurar mais o dinheiro, também porque algumas atividades do setor de serviços, que representa 70% do PIB, só devem ser normalizadas no ano que vem ou mesmo em 2022, com o surgimento de uma vacina contra a Covid-19. Mas o fim da crise encontrará os brasileiros menos endividados. Com mais poupança e mais capazes de consumir sem criar problemas financeiros para si e para a economia do país.

*Samy Dana é economista e colunista na Jovem Pan.