Dilma mete os pés pelas mãos em entrevista em Pernambuco

  • Por Jovem Pan
  • 22/08/2014 10h32

Reinaldo, Dilma esteve ontem em Pernambuco e concedeu uma entrevista. Quem falou? A candidata-presidente ou a presidente-candidata?

Vamos ver. Uma das dificuldades da pessoa que concorre à reeleição é saber a hora de falar como governante no cargo e a hora de falar como candidata. Dilma meteu os pés pelas mãos nesta quinta-feira. Saiu em defesa da presidente da Petrobras, Graça Foster.

Quem estava falando? Às vezes, parecia a candidata, e o discurso era absurdo; às vezes, parecia a presidente, e o discurso era mais absurdo ainda. A candidata-presidente foi visitar obras – atrasadas – da transposição do rio São Francisco em Pernambuco. Concedeu, em seguida, uma entrevista coletiva.

A presidente-candidata foi indagada sobre a atuação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e do advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, em defesa de Graça Foster, presidente da Petrobras. Dilma tinha uma infinidade de justificativas institucionais se quisesse. Poderia ter dito que, como as apurações se referem à atuação de Graça como diretora de uma empresa majoritariamente pública, a intervenção de ministro e advogado-geral se justifica.

Mas ela é atrapalhada. Saiu-se com esta, prestem atenção: “No meu governo, não precisa do ministro da Justiça só, ou do Adams. A presidente defenderá a Petrobras. Eu acho extremamente equivocado colocar a maior empresa de petróleo da América Latina, sempre durante a eleição, como arma política. Veja bem, ó: a Graça Foster e a diretoria inteira da Petrobrás representam a União. É de todo interesse da União defender a Petrobras, a diretoria da Petrobras. Nada tem de estranho esse fato. Pelo contrário, é dever do ministro da Justiça, de qualquer ministro do governo, defender a Petrobras”.

Está tudo errado. Quem disse que a Petrobras está sob ataque? Isso é uma piada. A rigor, durante quase dois anos, só eu dava bola para a questão de Pasadena. Quem emprestou nova urgência ao escândalo foi certa Dilma Rousseff, ao sugerir que, quando presidente do Conselho, fora enganada por Nestor Cerveró – que também está sendo treinado pela Petrobras. Depois se descobriu que a presidente da República dera o emprego de diretor financeiro da BR Distribuidora a um homem que ela julgava o culpado pelo imbróglio que resultou na compra da refinaria.

Dilma também resolveu atuar como advogada de Graça em outra questão. Referindo-se ao fato de que a presidente da Petrobras transferiu bens para parentes, afirmou: “A presidente Graça Foster respondeu perfeitamente sobre a questão de seus bens em uma nota oficial. Eu repudio completamente a tentativa de fazer com que a Graça Foster se torne uma pessoa que não possa exercer a presidência da Petrobras”.

Vênia máxima, Graça não explicou coisa nenhuma até agora. Explicou o quê? As apurações sobre Pasadena estavam em curso, e ela transferiu bens. E ponto.

A presidente-candidata disse, então, como ouviram, que a Petrobras não pode ser usada para disputa eleitoral, certo?

Ocorre que ela é também candidata-presidente. E aí saiu-se com esta, referindo-se a dois episódios ocorridos na Petrobras durante o governo FHC, disse a candidata-preside nte: “Eu me pergunto por que ninguém investigou com tanto denodo o afundamento da maior plataforma de petróleo, que custava US$ 1,5 bilhão a preços atuais. Por que, apesar de estar em ação popular, ninguém investiga a troca de ativos feita com a Repsol?”.

Vamos ver. Ela foi a todo-poderosa ministra das Minas e Energia. Depois, foi ministra-chefe da Casa Civil e czarina do setor energético. Presidiu o Conselho de Administração da Petrobras. É hoje presidente da República, apesar da retórica palanqueira. Então, em todos esses cargos, ela soube de malfeitos havidos na Petrobras e não tomou nenhuma providência? Estamos diante de um caso de prevaricação?

É um absurdo que uma presidente da República, ainda que candidata, se comporte como juíza de absolvição de pessoas cujos atos estão ainda sob investigação – só porque são suas aliadas – e como juíza de condenação de pessoas que nem mesmo estão sendo investigadas, só porque são suas adversárias.