Em reportagens sobre economias emergentes e estupro, o Brasil anda na companhia da Índia

  • Por Caio Blinder
  • 01/06/2016 09h51
Estupro coletivo

O apresentador da NPR, a rádio pública americana, alerta o ouvinte que, mais adiante, estarão cinco minutos desconfortáveis de relatos sobre crimes hediondos em dois países, em uma história  sobre violência contra mulheres e adolescentes, incluindo estupro e morte. Em reportagens sobre economias emergentes e estupro, o Brasil anda na companhia da Índia.

No Brasil, a adolescente carioca de 16 anos diz que foi estuprada por mais de 30 homens.  Na Índia, uma menina de 15 anos não contou nada. Foi encontrada morta, enforcada em uma árvore. As informações são de que ela foi violentada e dois suspeitos estão presos.

O apresentador da NPR conversa com as correspondentes da rádio no Brasil e na India, duas veteranas repórteres que já viram de tudo. Lulu Garcia-Navarro diz aos ouvintes que o Brasil é um dos países mais violentos do mundo e violência contra mulheres tem raízes profundas. O país foi o último das Américas a abolir aescravidão, um sistema em que a mulher era propriedade usada para gratificação sexual.

Na Índia, diz Julie MCCarthy, existe uma tempestade perfeita com o sistema de castas e uma disseminada atitude patriarcal. As vítimas de estupro por gangues costumam pertencer ao estrado social mais baixo, conhecidas como “intocáveis”.

Julie acrescenta que havia expectativas de um papel mais eficiente das instituições depois do caso de 2012, que ganhou manchetes globais, de uma jovem estuprada por um bando em um ônibus de Nova Déli. No entanto, um réu nestes casos na capital indiana ainda tem uma probabilidade de 83% de ser absolvido.

Então é a vez de Lulu Garcia-Navarro traçar os paralelos. Ela observa que, no Brasil, o sistema legal também é fraco, informando à audiência que o delegado foi afastado do caso da adolescente carioca por sugerir que houvera sexo consensual. Numa atitude comum no Brasil, fala-se que a garota “estava pedindo” o que levou.

O apresentador da NPR faz a pergunta inevitável às duas jornalistas: se os dois recentes casos podem ser vistos como um divisor de águas e ambas concordam no pessimismo. Julie MCCarthy observa que houve muita reflexão na India depois do caso de 2012, mas, apesar da cobertura jornalística maciça, a opinião pública, em larga escala, está “anestesiada” e o governo central continua não agindo com o rigor que deveria.

Sobre o Brasil, Lulu arremata que, como na Índia, os grandes casos não mudaram muita coisa apesar da indignação. Existem promessas nos altos escalões do governo, mas, como de hábito, está em curso mais uma investigacão caótica.

A correspondente no Brasil prefere terminar com uma nota de consolo: ao menos, é significativo que as pessoas estejam discutindo a cultura do estupro.