“Espero que o delegado e o juiz tenham filhos. Eles vão entender”

  • Por Jovem Pan
  • 21/06/2017 14h39 - Atualizado em 29/06/2017 00h57
SP - CRACK/CRACOLÂNDIA/DEPENDÊNCIA QUÍMICA - GERAL - A auxiliar de cozinha Solange Bueno dos Santos, de 43 anos, concede entrevista na casa de amigos em Sorocaba, no interior de São Paulo. Solange não se sente nem um pouco culpada por tomar uma medida extrema para tirar a filha de 17 anos do crack: acorrentou a jovem por 43 dias no quarto. "Fui mãe. Não fui carrasca. Fiz isso porque amo minha filha, que estava sendo levada para não sei aonde pela droga." A menina foi libertada há uma semana, após uma denúncia anônima levar agentes da Guarda Civil Municipal e do Conselho Tutelar à casa de dois cômodos no bairro Nova Esperança, um dos mais violentos de Sorocaba, no interior paulista. 20/06/2017 - Foto: EPITÁCIO PESSOA/ESTADÃO CONTEÚDOA auxiliar de cozinha Solange Bueno dos Santos

Os jornais destacaram o fato de uma mãe que acorrentou a filha por 43 dias. Hoje essa mãe foi entrevistada pelo jornalista José Maria Tomazela no Jornal O Estado de S. Paulo. Ela diz: “Fui mãe. Não fui carrasca”.

De liberada, a garota voltou para o crack. A própria mãe, desta vez, a buscou novamente em uma minicracolândia e a levou ao conselho tutelar. “Depois de 400 noites em claro, finalmente consegui dormir, pois sei que ela está sendo cuidada”, disse.

“Sempre fomos muito pobres, mas nunca deixei de lutar. Sou mãe solteira, tenho outros quatro filhos: uma menina de 19, que já está casada; um de 16; outro de 13; e o pequeno de 4 anos. Cuidei de todos sozinha.” Solange trabalhava como auxiliar de cozinha, mas teve de sair do emprego porque a filha tinha começado “a dar trabalho”. Para ter comida em casa, virou catadora de recicláveis

Decidiu acorrentar a filha quando viu que estava correndo riscos de vida. Acusaram a filha de sumir com droga e não tinha mais dinheiro para pagar

A Bíblia conta que Cristo cristo perguntou: “qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra?”.

Já o Direito define isso como “estado de necessidade”, o ato praticado para “salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se”. O exemplo é o de alguém que, durante um incêndio, invade um prédio para salvar alguém. Ele não responde por invasão a domicílio.

A mãe não se preocupa muito sobre as acusações de maltratos a que terá de responder. “Espero que o delegado e o juiz tenham filhos. Eles vão entender”.