Fim histórico do isolamento do Irã não traz calmaria imediata

  • Por Caio Blinder/ JP Nova Iorque
  • 18/01/2016 09h57
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Montagem/ EFE Barack Obama e Hassan Rouhani

Foi um fim de semana vertiginoso nas relações do regime islâmico do Irã com o resto do mundo, com lances que contribuíram de forma histórica para romper o isolamento do país dos aiatolás. O Irã e os Estados Unidos, país conhecido como o Grande Satã pela revolução islâmica, realizaram uma troca de prisioneiros e finalmente foi formalizada a suspensão das sanções internacionais contra o país como parte do acordo nuclear, ou seja, o acordo pelo qual o Irã concordou em desmantelar seu programa nuclear e bloquear o caminho para a fabricação da bomba.

Os lances indicam o reforço das forças pragmáticas em Teerã. A palavra chave aqui é pragmatismo e não uma ideologia mais moderada. O Irã continua comandado por uma teocracia, que busca ganhar um papel mais relevante no Oriente Médio e no mundo islâmico, combatido por outro regime teocrático medonho, o da Arábia Saudita e também por Israel, que se considera alvo de uma meta de destruição pelo regime xiita de Teerã.

O Irã precisava se livrar do sufoco das sanções, precisava que seus ativos financeiros fossem descongelados (estamos falando de dezenas de bilhões de dólares) e precisava voltar a exportar muito petróleo. Parte da crise econômica do Irã é a impossiblidade de exportar mais petroleo e ironicamente a retomada irá baixar ainda mais os preços que em três anos caíram de 100 dólares o barril para 30.

Mas dinheiro é dinheiro e o Irã precisa apaziguar sua população, que sofre com inflação muito alta e carestia. O fim das sanções é vital para as forças pragmáticas do presidente Hassan Rouhani ganharem oxigênio e votos nas eleições parlamentares no final de fevereiro.

No cálculo do governo Obama, que prioriza a diplomacia e não o confronto nas relações com o Irã, era vital apressar a suspensão das sanções justamente antes destas eleições. Claro que o Irã não é uma democracia, mas tampouco é uma ditadura da pesada, como a Arábia Saudita. Eleições servem para sentir o pulso da população.

Recompensa eleitoral para as forças mais moderadas vai contribuir para enfraquecer a linha dura em Teerã contrária ao acordo nuclear e a qualquer tipo de relacionamento com o mundo ocidental. Pragmáticos mais fortes em Teerã também representam um golpe à linha dura em Washington, ou seja, o Partido Republicano que controla o Congresso e com um pelotão de candidatos presidenciais furiosos com o acordo nuclear impulsionado por Obama.

O fim de semana foi de lances vertiginosos nas relações do Irã com o mundo. E não devemos esperar calmaria nos próximos tempos com a continuação dos duelos entre forças pragmáticas e forças inflexíveis em Teerã e em outras capitais mundiais.

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