Jornalismo deve ser mais prudente

  • Por Jovem Pan
  • 30/04/2014 10h59

Reinaldo, então o Coronel Malhães, o torturador, morreu mesmo vítima de crime comum. E por que você diz que o jornalismo tem de ser mais prudente?

Porque fez um estardalhaço por nada, eu costumo desvendar crimes recorrendo à lógica elementar. Eu costumo desvendar crimes jogando no lixo as teorias conspiratórias. O coronel Paulo Malhães não foi morto por ex-torturadores que tenham decidido se vingar dele. Um rematável imbecil chegou a dizer que esse assassinato era parte da reorganização das forças de direita no país.

Já há confissão. Um caseiro da chácara do coronel e seus irmãos resolveram roubar armas, que ele tinha guardadas. No primeiro dia, escrevia o seguinte no blog: “A morte do coronel vem pronta para teorias conspiratórias. Alguns dirão que foi vítima de grupos de extrema direita, que estariam interessados em seu silêncio. Outros dirão que morreu em razão da ação de vingadores da extrema esquerda. Tudo é possível, gente como esse coronel perde o direito de ser vítima de crime comum. O mais provável, acho eu”.

Em outros textos perguntei qual era a hipótese da turma. Será que ex-torturadores da faixa dos 80 anos, os mais jovens e ainda sobreviventes, teriam feito um comando homicida? Para proteger quem? Era uma hipótese ridícula veiculada por gente, desculpem, não menos ridículas.

Mas a imprensa não aprende. Mistificações em penca estão em curso, por exemplo, no caso do bailarino Douglas Rafael. O episódio emblemático do momento em que a imprensa decide se comportar como manada, sem pensar, se deu em Fevereiro de 2009, quando a brasileira Paulo Oliveira afirmou ter sido vítima de neo-nazistas na Suíça, que teriam desenhado com estilete em seu corpo a sigla de um partido de extrema direita.

Olhei as fotografias, os desenhos eram regulares, feitos em alguém que estivesse imóvel. Umas das letras estava espelhada. Perguntei se aquilo era possível no escuro, com alguns brutamontes constrangendo a vítima. E aventei a possibilidade de que a história fosse falsa, de que Paulo houvesse infringido os ferimentos em si mesma. Ou, ao menos, aceitado que alguém o fizesse.

Apanhei pra chuchu nas redes sociais. A imprensa ficou histérica, o Itamaraty acusou racismo, os nacionalistas quase mandaram a expedição Policarpo Quaresma invadir a Suíça. E eu apanhando dos tolos, porque não seria brasileirista o bastante. A história era falsa, Paulo havia feito os ferimentos em si mesma.

É preciso que a imprensa tenha claro o seguinte: a ideologia destrói a notícia. O único compromisso da imprensa, mesmo quando decide ser opinativa, e eu faço jornalismo opinativo, é com os fatos, é com a verdade.