Jornalismo pegou o caminho mais fácil ao caricaturar Trump e seus eleitores

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan Nova Iorque
  • 21/11/2016 07h34
CDA048. LAS VEGAS (EE.UU.), 19/10/2016.- El candidato a la Presidencia de EEUU por el partido Republicano Donald Trump durante el debate con su rival demócrata Hillary Clinton hoy, miércoles 19 de octubre de 2016, en la Universidad de Nevada en Las Vegas (EE.UU.). EFE/JIM LO SCALZODonald Trump EFE

Para usar uma expressão de uma ex-presidente brasileira, não estou anunciando notícias bombásticas quando digo que a imprensa americana ficou estarrecida com a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais. Na sua maioria, a imprensa ficou estarrecida por não gostar dele e por não ter vislumbrado o desfecho.

Nenhuma surpresa que sejam dias de salgada autocrítica, em particular para a matriarca da imprensa tradicional, o New York Times. E algo emblemático na penosa tarefa de reflexão foi o texto dominical de Liz Spayd. Ela é a editora pública do jornal, falando pelos leitores.

A editora pública escreve que um grupo de dez amigas da cidade de Charlotte, no estado da Carolina do Norte, têm uma mensagem para o New York Times. Elas são mulheres na faixa dos 50 anos, todas brancas, com diploma universitário e vida profissional bem sucedida.

E atenção: elas votaram em Donald Trump e não se consideram racistas, homofóbicas e islamofóbicas. Lamentam que devido à obsessão do jornal com os partidários mais extremistas de Trump, a maioria das pessoas acha que estas cinquentonas sejam o que existe de pior.

Nos comícios eleitorais e nos seus tuítes (mesmo agora como presidente-eleito), Donald Trump dispara de forma virulenta contra o mais importante jornal do mundo e mente que esteja perdendo leitores devido à sua cobertura.

As mentiras de Trump não devem ofuscar um problema grave apontado pela editora pública. O jornal e outras publicações pegaram o caminho fácil de caricaturar Trump, assim como muitos dos seus eleitores.

Mesmo partidários de Hillary Clinton estão escrevendo ao jornal, cobrando uma cobertura mais sutil dos acontecimentos. Ironicamente, leitores mais à esquerda, que apoiaram Bernie Sanders nas primárias democratas, tambem reclamam da torcida do jornal por Hillary (isto mais nos editoriais e páginas de opinião).

Eu pessoalmente acredito que o New York Times terá um papel de muito responsabilidade como guardião dos valores da democracia liberal e das benesses de uma sociedade aberta, globalizante e cosmopolita nestes tempos de ascensão nacionalista e de pendores autoritários, unindo Trump a Vladimir Putin.

Nada isso invalida o alerta no final do texto da editora pública do New York Times. O jornal não pode ser uma mera caixa de ressonância do intelectualismo liberal, mas deve realizar uma cobertura que seja uma “reflexão honesta da realidade”.