Juiz Sérgio Moro sentiu a necessidade de evidenciar que não é um maluco

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 07/11/2016 07h59
Brasil, São Paulo, SP, 11/09/2008. Sérgio Fernando Moro, juiz federal durante entrevista á TV Estadão. - Crédito:J. F. DIORIO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Codigo imagem:107084Juiz Sérgio Moro - Estadão Conteúdo

Vou aqui comentar, em dois posts, a longa entrevista concedida pelo juiz Sérgio Moro ao Estadão deste domingo. É a primeira concedida por ele desde o início da Operação Lava-Jato. Ele falou aos repórteres Fausto Macedo e Fernando Brandt.  A exemplo de todo homem, disse coisas certas e erradas; fez afirmações que encontram respaldo nos fatos e outras que vão contra as evidências da história. O juiz diz, por exemplo, que o combate ao crime do colarinho branco é mais uma tradição da esquerda do que da direita. Bem, infelizmente não é verdade. Nem no Brasil nem no mundo. Vamos ver.

Escrevi uma coluna na Folha, na sexta, em que afirmo que Moro é candidato a alguma coisa. Ao lado de reconhecer as óbvias virtudes da Lava-Jato, censurei a militância política do juiz fora do tribunal, revelada, muito especialmente, numa página no Facebook chamada “Eu MORO com ele”, coordenada por sua mulher. No domingo, vem, então, a manchete do Estadão, abaixo da foto do juiz: “Jamais entraria para a política”.

Antes que comente a entrevista, seus aspectos positivos e negativos, uma observação à margem. Faço este blog desde junho de 2006. Minha primeira coluna na Folha foi publicada no dia 25 de outubro de 2013. Nunca, nunca mesmo!, nem quando Lula tinha popularidade acima de 80%, fui alvo de tantos ataques e baixarias.  Se eu não tivesse me acostumado com as grosserias dos petralhas, talvez ficasse chocado agora com a fúria de alguns “moristas”. Em vez da contestação, o insulto; em vez do contra-argumento, o ataque; em vez da discordância, a ânsia de eliminar o outro — e não foram poucos os que falaram  em eliminação física mesmo. O nome disso: intolerância.

Faço primeiro uma avaliação de caráter, digamos, tático. O juiz sentiu a necessidade de evidenciar que não é um maluco, um incendiário, um doidivanas. Se o fez, convenha-se, é porque percebeu que isso era preciso. Ao saber do conteúdo das pré-delações dos executivos da Odebrecht, teria dito, segundo informou VEJA: “Espero que o Brasil sobreviva”. A fala é de uma infelicidade que dispensa argumentação. Afinal, um país que não sobrevivesse iria para onde?

A entrevista ao Estadão era a chance de Moro negar a autoria da frase. Não negou. Também poderia tê-lo feito por meio de nota. Não o fez. Mas parece, felizmente, ter mudado de ideia. Disse sobre o futuro: “Mas não se deve ter receio de qualquer problema dessa espécie em relação ao Brasil. O país já enfrentou desafios grandes no passado (…). O que traz instabilidade é a corrupção, não o enfrentamento da corrupção”. Melhor assim. Afinal, não seria aceitável uma realidade em que Moro sobrevivesse, mas não o Brasil.

O segundo objetivo explícito da entrevista é negar qualquer intenção de se candidatar. Foi peremptório: “Não. Jamais. Jamais. Sou um homem de Justiça (…). Não existe jamais esse risco”. Segundo fica claro, suas ambições estão ligadas apenas à sua carreira. Então conviria, insisto neste aspecto, que ele recomendasse à sua “querida esposa” que fechasse a página no Facebook, uma vez que o culto à sua personalidade leva à identificação da operação com a sua figura, o que, segundo ele mesmo, “não é inteiramente correta”.

Assim, é positivo que Moro tenha vindo a público para deixar claro que, por óbvio, não é Deus — não está acima da contestação. E também não pretende sê-lo.

Ideologia
Moro se recusou a dizer o seu lugar no espectro ideológico, se direita, esquerda ou centro. Disse ser isso desimportante para um juiz e considerou que essas fronteiras hoje não são rígidas. Também acho. Fez, no entanto, uma consideração que o Estadão não transcreveu — está apenas na banda sonora da entrevista. Disse ele: “Até, vamos se dizer assim, que, por tradição, é mais uma bandeira da esquerda uma atuação mais efetiva da Justiça contra crime do colarinho branco, do que propriamente do espectro ideológico da direita”.

Bem, as palavras fazem sentido, e eu me interesso pelo sentido que elas têm. Mundo afora, os liberais é que cobram ações mais duras contra a corrupção porque esta, invariavelmente, está ligada a alguma hipertrofia do Estado. Quem levantou a bandeira contra a corrupção foram os não-esquerdistas, não é mesmo, Sérgio Moro? Mais: os dois maiores escândalos da história do Brasil foram liderados pela esquerda. Tivesse dito o juiz que a bandeira tradicional da direita é eficiência — e isso inclui o combate à corrupção — e a da esquerda é a justiça social, com ou sem corrupção, eu diria que ele está certo.