Lágrimas de Janaína e Cardozo: o PT reivindica até o monopólio do choro

  • 31/08/2016 11h36
Plenário do Senado durante sessão deliberativa extraordinária para votar a Denúncia 1/2016, que trata do julgamento do processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff por suposto crime de responsabilidade. Em discurso, à tribuna, advogado da presidente afastada Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo. Foto: Geraldo Magela/Agência SenadoJosé Eduardo Cardozo

Eu acho que a frase, cujo conteúdo, não as palavras exatas, reproduzo a seguir saíram da boca do meu querido amigo Gerald Thomas quando um crítico, se não me engano, cobrou “mais emoção” em uma de suas montagens teatrais. Na minha memória, mas não consigo confirmar (e Gerald vai me dizer), o artista respondeu o seguinte: “As pessoas se emocionam pelos mais diversos motivos; há quem fique emocionado quando uma linha reta faz uma curva”. Se não é do meu amigo e se eu não achar a autoria, então fica sendo minha. Pronto.

Em embates de natureza pública, este chorão aqui não gosta muito de emoção, não. Nas questões pessoais, na fruição estética — um filme, um poema, uma música, um quadro — e diante do sofrimento de gente ou de bicho, em especial de quem não sabe nem mesmo dizer o nome de sua dor, eu sou um usuário caudaloso das lágrimas. Eu as dispenso no embate público. Se tentam arrancar a minha emoção, costumo devolver doses até exageradas de razão.

A advogada Janaína Paschoal chorou no fim de sua fala a favor do afastamento definitivo de Dilma Rousseff. Usou o tempo que lhe cabia para rebater pontos da defesa da petista, mas se emocionou e pediu desculpas a Dilma.

Disse ela: “Finalizo pedindo desculpas à senhora presidente. Não por ter feito o que fiz, mas por eu ter lhe causado sofrimento. Sei que a situação que está vivendo não é fácil. Muito embora não fosse meu objetivo, causei sofrimento. E eu peço que ela, um dia, entenda que eu fiz isso pensando também nos netos dela”.

Durante seu discurso, Janaína também rebateu as acusações, vocalizadas pela própria Afastada, segundo as quais parte das motivações do impeachment derivava de misoginia — vale dizer: Dilma estaria sendo perseguida porque mulher. A advogada afirmou que atuaria da mesma forma se o cargo fosse ocupado por um homem e que “ninguém pode ser protegido por ser mulher”.

Janaína estava sendo sincera ou estava sendo tática? Eis aí: eu acho que estava sendo sincera. Quem a conhece sabe que está realmente sofrendo. Embora eu não ignore que estava lá, também, na condição de profissional da acusação.

Cardozo
Indignado mesmo eu fiquei com José Eduardo Cardozo. Que também chorou. E lhe reconheço motivos para tanto. Gostaria de estar aqui a elogiá-lo. E por que não o faço?
Durante uma entrevista, com olhos marejados e, depois, às lágrimas soltas, ele criticou o que chamou de “estratégia” de Janaína, em especial o trecho da fala em que a advogada disse que atuou pensando também nos netos de Dilma.
Afirmou o advogado: “Aquele que perde a emoção diante da injustiça é alguém que se desumanizou. As palavras da acusação foram muito injustas. Para quem conhece Dilma Rousseff, pedir a condenação para defender os seus netos é algo que me atingiu muito fortemente. É errado. Não é justo. Do ponto de vista humano, aquele que perde a capacidade de se indignar diante da injustiça perdeu sua humanidade. Me emocionei para não perder a minha”.

Aí não!
Acho que está claro que, para meu gosto, dispensaria lágrimas de um lado ou de outro. Mais: mesmo assim, eu as compreendo.

Observem que Cardozo está a dizer que a sua emoção é sincera, é verdadeira, é pura, é destituída de interesses. Já as da sua colega de acusação não teriam o mesmo status, a mesma dignidade. As dela, ele assegura, eram uma estratégia.
Caberia, então, a pergunta: e as suas próprias eram o quê?
O PT é de tal sorte autoritário que pretende ter o monopólio até do choro.
Ademais, convenham, o julgamento já teve embates mais duros, e não vimos o advogado de Dilma liberar seu rio de lágrimas…
Fiquei com a desagradável sensação de que também essa performance foi feita para as câmeras, para os cineastas hoje dedicados a levar adiante a farsa do golpe.

Zé Eduardo não chega a me fazer chorar. Mas me entedia muito. Eu o acho previsível e meio falastrão