Narcotráfico está usando morte de dançarino no Rio como propaganda

  • Por Jovem Pan
  • 25/04/2014 13h07
Tânia Rêgo/Agência Brasil Enterro de dançarino morto no Rio de Janeiro

Reinaldo, quer dizer que o narcotráfico está usando a morte do dançarino Douglas Rafael da Silva para a guerra de propaganda?

Está sim, e não é só o tráfico não. Quem assistiu apenas a alguns noticiários de TV na noite desta quinta não ficou sabendo, porque a informação lhes foi sonegada, que a manifestação de protesto contra a polícia do Rio, e especialmente contra a presença das UPPs nos morros, contou com a adesão de black blocs e dos militantes profissionais de sempre.

Havia moradores de favelas, especialmente de Pavão-Pavãozinho, protestando nas ruas de Copacabana? Havia sim, mas os “ideólogos da asfalto” estavam lá para, mais uma vez, usar um cadáver como estandarte. Desta feita, o de Douglas Rafael da Silva, encontrado morto no Pavão-Pavãozinho, sua comunidade de origem mas onde ele já não morava mais. Seu corpo foi enterrado ontem, num grande “happening”, que contou até com fogos de artifício.

Eu sou um crítico não das UPPs, mas da política de segurança pública do Rio, que opta por espantar bandidos em vez de prendê-los. Mas é evidente que defendo a presença de unidades policiais nos morros. É claro que as palavras de ordem dos protestos de ontem, como “Fora UPP!” e “UPP Assassina!”, foram ditadas pelo narcotráfico. O mesmo narcotráfico que enfrentou policiais à bala, na mesma madrugada em que Douglas, que era dançarino do programa “Esquenta” de Regina Casé, foi assassinado.

É possível que os assassinos sejam policiais? É sim, mas também podem ter sido os traficantes. E se não foi a polícia, vão aceitar o resultado? Douglas era uma celebridade local, já não precisa mais viver na favela, embora circulasse por lá. Par ao narcotráfico, estou apenas lidando com a lógica, ele está sendo mais útil morto do que vivo.

Há coisas incomodas nessa história toda que precisam ser ditas. No dia 18 de Janeiro, no Facebook, Douglas lamentava a morte do traficante Patrick Costa dos Santos, o “Cachorrão”, num confronto com a polícia, ocorrido um dia antes. E se expressou nestes termos: “PPG tá de luto e os amigos cheio de ódio na veia. Mais tarde o bico vai fazer barulho. Saudades eternas Cachorrão”.

Até aí vá lá, o cara podia ser seu amigo, mas é preciso traduzir a mensagem. “PPG” quer dizer “Pavão-Pavãozinho e Galo”, que é a região do morro. “Bicos” são fuzis, os “amigos” são integrantes das quadrilhas. “Fazer barulho” é efetuar disparos com os fuzis. A frase traduzida então fica assim: “Pavão-Pavãozinho e Galo estão de luto, e as quadrilhas, cheias de ódio nas veias. Mais tarde haverá tiros de fuzis. Saudades eternas Cachorrão”.

Eu nunca insinuo nada nem falo coisas oblíquas, pouco importa o que estava fazendo o rapaz quando não estava dançando no “Esquenta” da Casé, uma coisa é certa: não poderia ter morrido como morreu. E é preciso saber quem o matou e meter em cana, use farda ou não.

Mas não dá para ignorar os fatos. Cobrar a rigorosa apuração dos fatos? Sim. Meter em cana os assassinos? Sim. Pedir uma polícia mais preparada nos morros e em toda parte? Sim. Exigir que as UPPs deixem as favelas? Aí não. Isso é reivindicação de bandido, de narcotraficante.