Narcotráfico volta a dominar o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro

  • Por Jovem Pan
  • 04/08/2014 11h20

Reinaldo, o narcotráfico voltou a dar as cartas no Complexo do Alemão, no Rio. O que deu errado?

É, voltou sim, não tem jeito. Enquanto o Brasil não aprender a lidar com o óbvio, o óbvio vai nos golear com mais facilidade do que a Alemanha enfrentando a Seleção de Felipão. Quem recorrer ao arquivo do meu blog vai encontrar várias dezenas de textos sobre as UPPs, as tais Unidades de Polícia Pacificadora, um nome que nasceu torto, fruto de uma consciência torta para um programa não menos torto.

Notem: é claro que eu defendo, hoje como antes, que a polícia chegue ao morro. É claro que eu defendo, hoje como antes, que se faça o policiamento comunitário. Ocorre que parte do Complexo do Alemão, que conta com quatro UPPs, já está, de novo, entregue ao narcotráfico. Os tiroteios voltaram a ser diários. De janeiro a julho, oito pessoas morreram em confrontos ― duas eram PMs. Na campanha eleitoral de 2010, como esquecer, Dilma dizia que a política de segurança do Rio era um modelo e que ela pretendia adotá-la Brasil afora. Ainda bem que a presidente não é do tipo que cumpre o que promete.

Pois bem, o que sempre esteve errado com a política de segurança pública do Rio? Resposta: não prender bandidos, mas espantá-los. O que se pediu a eles é que se comportassem. Mas sabem como são os criminosos. Nem sempre cumprem acordos, não é? O Rio de Janeiro continua lindo. Fazer presídios, por exemplo, pra quê?

É evidente que a vida melhorou em favelas em que o narcotráfico parou de andar de revólver e fuzil à mostra e em que não há mais risco de confronto entre facções. É evidente que os dias ficaram mais tranquilos nas “comunidades”, como se diz por lá, em que as UPPs ou soldados do próprio Exército são convidados a atuar como seguranças do narcotráfico, garantindo que não haverá guerra de quadrilhas ou enfrentamento com aquelas excrescências que são as milícias.

Mas isso basta? É o que o Estado tem a oferecer à população? Um acordo de cavalheiros com o narcotráfico? A confissão de uma falência? Sim, boca de fumo tem em qualquer lugar. Mas não é em todo lugar que homens com fardas oficiais, de entes públicos, atuam, então, como pacificadores de gangues. Essa equação iria desandar. E desandou.

Essa confusão entre “comunidade” e “bandidagem” tem um erro de origem: a suposição de que o marginal é uma vítima social. O Brasil tem tantas vítimas que eu gostaria de saber onde estão os algozes. Já notaram? Os traficantes, coitados, são vítimas. Essas vítimas, por sua vez, vendem seu produto a outras vítimas: os que fumam e cheiram. Vai ver então os vilões da história somos nós, os que nem vendem nem cheiram pó e os que nem vendem nem fumam maconha.

É claro que prender mais supõe uma polícia mais eficiente e menos corrupta.  E com mais presídios onde abrigar os bandidos.

Para encerrar: o nome “polícia pacificadora” sempre me irritou porque carrega consigo uma óbvia impostura e também uma revelação involuntária: pacificar quem exatamente? Pactos de paz se estabelecem entre inimigos beligerantes, postos em pé de igualdade e considerados igualmente legítimos.

Cabe hoje, como sempre coube, a pergunta: quem está de cada lado? Então vamos estabelecer a “paz” entre a bandidagem e suas vítimas, é isso? Entre a lei e a não-lei? Entre a sociedade de direito e o arbítrio do crime?

Sim, infelizmente, sempre se tratou exatamente disto: a polícia dita “pacificadora” traz na sua origem o reconhecimento de que existe certa legitimidade no banditismo. O que se cobrava dele é que fosse mais discreto; que não tiranizasse as populações do morro; que não as submetesse a uma disciplina escandalosamente de exceção; que não saísse matando desbragadamente; que fizesse o seu tráfico, mas com um pouco mais de decoro. A receita desandou.