Novo capítulo da escalada de tensões na península coreana

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan Nova Iorque
  • 10/05/2017 08h27

Moon Jae-InEFE - Moon Jae-In

Em três dias, duas eleições nacionais com vitória de lavada do vencedor e com impacto global.

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No domingo, foi o triunfo (na verdade, mais a rejeição da derrotada) do centrista francês Emmanuel Macron contra a extremista de direita Marine Le Pen. O centro resiste, a Europa resiste e a onda populista que ameaça a ordem liberal global ao menos foi contida para a desolação do porta-estandarte Donald Trump e do seu sabotador-hackeador Vladimir Putin.

E agora na terça-feira foi o triunfo do esquerdista Moon Jae-in nas eleições presidenciais sul-coreanas, na esteira do escândalo de corrupção que levou ao impeachment e prisão da ex-presidente Park Geun-hye, que aguarda julgamento.

Advogado de ativistas de direitos humanos e filho de refugiados norte-coreanos (ele inclusive nasceu num campo de refugiados), Moon foi líder estudantil nos anos 70 quando o país era uma ditadura governada pelo pai de Park Geun-hye, contra a qual ele perdeu a eleição em 2012. Moon é conhecido pela falta de carisma e pela integridade pessoal. Ele trabalhou para dois presidentes liberais que antecederam os nove anos de governos conservadores na Coreia do Sul.

O novo presidente tem uma plataforma explosiva. Dentro de casa, promete acabar com a boa vida dos conglomerados empresariais que fazem uma festa de arromba da corrupção. Ele foi eleito com o voto maciço de jovens e de uma classe média que se mobilizaram intensamente contra os escândalos do governo anterior e que estão desencantados com a perda de fôlego econômico e as desigualdades sociais neste país que é carro-chefe entre os emergentes.

Crescer é preciso, mas também em uma sociedade transparente, na qual o palácio presidencial deixe de ser uma Casa da Mãe Joana para o tráfico de influências e dinheiro entre políticos e empresários. Aliás, Moon promete transformar o palácio presidencial em Seul em um museu.

Mas como Moon vai presidir a Coreia do Sul, o impacto de sua eleição é global graças ao vizinho nuclear e transloucado. Ele promete adotar uma política mais conciliatória com a ditadura de Kim Jong-un, reeditando a postura de outros presidentes liberais, acreditando que a combinação de pressão e engajamento seja o melhor caminho para domar a besta.

O presidente Moon pertence a uma tradição de nacionalismo sul-coreano antiamericano e o distanciamento de Washington está na ordem do dia. Ele inclusive é crítico da recente instalação de um sistema americano de defesa antimísseis no país, que irritou profundamente a China, o único sustentáculo internacional da reclusa e tirânica Coreia do Norte e com a qual o novo presidente acena com aproximação.

A escalada de tensões na península coreana tem agora contornos ainda mais imprevistos com a mudança de guarda em Seul. Ironicamente, parece haver mais pânico em Washington do que em Seul sobre o que se passa na Coreia do Norte e os sul-coreanos estão mais preocupados com Donald Trump do que com Kim Jong-un.