Qualquer que seja o desfecho, as perspectivas na Turquia são de instabilidade

  • Por Caio Blinder
  • 16/07/2016 09h01
Exército confirmou que tomou o poder na Turquia e afirmou que esperam "manter boas relações com todos os países"

Que semana, não sei quando vai terminar. Agora é a Turquia. No jargão, a situação está fluida, com uma tentativa de golpe militar em andamento contra o regime islamista semiditatorial de Recip Erdogan, metido a sultão.

Existe uma tradição de golpes seculares na Turquia, mas tudo indicava que Erdogan tinha realizado o expurgo nos círculos militares e que, apesar do quadro de turbulência no país e na região, o regime era estável. E agora tivemos esta aventura militar.

Síria é complicada? Preparem-se para Turquia, que tem um regime semiditatorial com base popular, uma parcela do país que celebrou o golpe, os curdos separatistas em polvorosa, milhões de refugiados sírios, atuação do grupo terrorista Estado Islâmico e a Europa atordoada com sua pilha de crises.

Tudo soa surreal. Basta ver a primeira palavra-de-ordem de Erdogan pela resistência ao golpe: foi em entrevista por FaceTime à CNN turca. E o que vai acontecer?

Qualquer que seja o desfecho, as perspectivas na Turquia são de instabilidade, o que obviamente vai afetar profundamente a região, pela importância estratégica deste país de 75 milhões de habitantes, com um pé na Europa e outro no Oriente Médio.

Olhe o mapa e verá que a Turquia faz fronteira com a Síria, Iraque e Irã. O país integra a Otan, a aliança militar ocidental, participa da coalizão que combate o terror do Estado Islâmico e ao mesmo tempo faz jogo duplo, pois a prioridade de Erdogan é derrubar o ditador sírio Bashar Assad.

Caso Erdogan consiga esmagar o golpe, pela frente teremos ainda mais opressão de um regime que vence eleições de forma relativamente democrática, mas que persegue sem pudor aqueles que contestam seu poder. Asssim, Erdogan será implacável no seu modo de operação: demonizar aqueles que não fazem salamaleque.

Após algumas horas de incerteza e violência, as indicações eram de que o regime Erdogan retomara o controle da situação

Já os golpistas se mostraram dispostos a derramar sangue, algo que constrasta com levantes anteriores. Parece difícil que o golpe emplaque, mas está claro que a imposição de uma nova ordem seria brutal.

Uma região marcada por turbulência e constantes surpresas, amarga uma escalada de crise em um dos seus cenários mais estratégicos.