SUPERPODER: Janot soma messianismo, corporativismo e cabotinismo!

  • Por Reinaldo Azevedo / Jovem Pan
  • 15/03/2017 09h21
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado, sabatina Rodrigo Janot Monteiro de Barros, indicado para ser reconduzido ao cargo de procurador-geral da República (Marcelo Camargo/Agência Brasil) Marcelo Camargo/Agência Brasil Rodrigo Janot passa por sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado

Todos vão silenciar, de forma reverencial, ante a carta que Rodrigo Janot resolveu enviar aos procuradores, misturando, em doses indigestas para estômagos exigentes em matéria de estado de direito, demagogia condoreira, autoelogio e corporativismo. Tal texto chega aos subordinados no dia em que, na prática, o Ministério Público nega a centralidade do PT no tal maior escândalo de corrupção da história do país. A Lista dos 83, dada a sequência narrativa, diz aos brasileiros que todos são iguais. E essa é uma mentira grotesca, que interessa a esquerdistas, a reacionários em surto e a vigaristas intelectuais.

Suas palavras são inequívocas sobre a igualdade na lama:
“O sucesso das investigações sérias conduzidas pelo MPF [Ministério Público Federal] até aqui representa uma oportunidade ímpar de depuração do processo político nacional, ao menos para aqueles que acreditam verdadeiramente que é possível, sim, fazer política sem crime e que a democracia não é um jogo de fraudes, nem instrumento para uso retórico do demagogo, mas um valor essencial à sociedade moderna e uma condição indispensável ao desenvolvimento sustentável do nosso país”.

Entendi. Se alguém tem alguma crítica a fazer à Lava Jato, então é porque não acredita que se possa fazer política sem crime. Janot seria reprovado numa prova de retórica nível “Massinha I”.

O trecho mais significativo é este:
“Certamente o MPF terá dois desafios institucionais a vencer a partir de hoje: manter, como sempre o fez, a imparcialidade diante dos embates político-partidários que decorrerão do nosso trabalho e velar pela coesão interna. Não temos a chave mágica para a solução de todos os problemas revelados com a Lava Jato — especialmente agora, com a colaboração da Odebrecht —, mas, na parte que nos compete, asseguro a todos vocês que continuarei a conduzir o caso sob o viés exclusivamente jurídico, sob o compasso da técnica e com a isenção que se impõe a qualquer membro do Ministério Público”.

Janot seria ainda reprovado na prova de interpretação de texto no contexto. Também Massinha I.

O Ministério Público Federal não pode ser partidário, mas não tem de exaltar a própria imparcialidade, ou resta a suspeita de que está fazendo dessa imparcialidade um valor meramente instrumental. Ou por outra: se pegar um lado, tem de pegar o outro. Foi essa suposta “isenção” que tirou do PT o papel de protagonista da máquina criminosa.

Ah, caras e caros, não nos esqueçamos nunca: Janot só não promete ser bonito! Não devemos nos preocupar quanto ao resto. Ele assegura que continuará fiel à lei, à técnica e à isenção.

E um texto para a corporação não seria… corporativista se não exaltasse o hercúleo esforço dos procuradores, como se estivessem fazendo algo além de exercer o seu trabalho, pelo qual são regiamente pagos. Estão no topo da cadeia salarial do serviço público. Diz o doutor:
“Esse trabalho exigiu de todos nós envolvidos no processo um esforço sobre-humano para colher-se os depoimentos, organizá-los, elaborar petições e, por fim, encaminhar todo o caso ao Supremo Tribunal Federal. Todas essas tarefas foram ultimadas em apenas 15 dias, de modo que, antes do recesso, o material já estava à disposição da Corte para exame e homologação”.

Até a língua, coitada, levou uma tapão na concordância: o correto é “para se colherem os depoimentos…”.

Faço a correção de língua portuguesa por dever, mas o que me incomoda mesmo é a gramática ética. Um procurador-geral da República não tem de ficar estimulando seus rapazes “a acabar com eles”, como se fosse um treinador de futebol americano ou um oficial comandando um ataque da artilharia num campo de batalha.

E por último, mas em primeiro lugar: ao Ministério Público Federal não cabe “depurar o processo político”, a menos que se considere um Poder acima dos Três Poderes. A depuração, na democracia, há de ser a consequência da observância das leis. Aquele que atribui a si mesmo a tarefa de “depurar” tende a se descuidar da ordem legal em nome de sua missão.

Janot perdeu uma boa chance de ficar calado. Mas sua carta é, sim, útil. Mostra que o Ministério Público Federal já se considera um Quarto Poder, ao qual os outros estão subordinados.

Pra cima de mim, não, jacaré!

Sou especialmente treinado para perceber aspirações autoritárias até em cartas de amor…