Trumpismo pode causar falta de médicos em áreas dos EUA

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan Nova Iorque
  • 13/02/2017 08h08
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David Brooks, o grande colunista conservador do New York Times, está desolado com o governo Trump. Na verdade, ele está deprimido com os rumos do país sob a administração deste presidente. Brooks acaba de publicar um texto arrasador, fazendo um exame clínico do quadro.

Brooks escreve que no coração do trumpismo está a percepção de que o mundo é um lugar sombrio e selvagem. Portanto, brutalidade, rudeza e insensibilidade são necessárias para sobreviver nele.

É convicção absoluta do trumpismo, como o presidente desinformou, que as taxas de homicídio estão no patamar mais alto em 47 anos, embora de fato estejam perto da mais baixa em 57 anos. É convicção absoluta do trumpismo que os americanos estão engajados em uma guerra apocalíptica contra o terrorismo islâmico, embora haja provavelmente vários problemas de política externa de maior importância.

E Brooks elabora que não está claro que Trump seja combativo porque ele vê o mundo como perigoso ou se ele vê o mundo como perigoso porque isto justifica sua combatividade. De qualquer forma, trumpismo é uma postura que conduz ao já familiar ciclo de percepção de ameaça, insulto, criação de inimigos, ressentimento, autocomiseração, ataque e contra-ataque.

Neste visão de mundo, não há muita solidariedade a refugiados. Para Donald Trump, refugiados são uma ameaça e não uma esperança em um país que ao longo da história teve altos e baixos na acolhida de imigrantes. Ao redor do mundo, os EUA são para tantos a terra das oportunidades, seja para começar algo novo, seja para terminar algo medonho como privação econômica, o horror da guerra ou algum tipo de perseguição que uma pessoa sofre por ser o que ela é.

A oportunidade para quem chega também é a oportunidade para quem acolhe. E caso sua ordem executiva, agora suspensa por ordem judicial, seja novamente efetivada existe o temor de que irá por exemplo prejudicar partes do país que necessitam desesperadamente de médicos. Sim, médicos.

É uma ironia que mesmo em regiões dos EUA mais hostis ou suspeitas de imigrantes e refugiados, médicos do exterior tenham um papel essencial por serem as áreas mais atrasadas e carentes. Estrangeiros que se formam em escolas de medicina nos EUA podem clinicar no país por pelo menos três anos com um visto especial desde que isto ocorra em áreas com carência de médicos.

Pelos cálculos da Associação Médica Americana, moram hoje no país 280 mil médicos nascidos no exterior. A cifra representa, 1 em 4 praticando a profissão. Muitos já são cidadãos ou possuem o visto permanente de residência, o green card. Outros têm o visto especial de trabalho e por este motivo sentem que vivem em uma situação precária.

E um recente estudo comprova que a assistência proporcionada por médicos formados em escolas estrangeiras é de primeira linha. Ademais, universidades americanas informam que muitos estrangeiros neste clima de incerteza preferem não se deslocar aos EUA para cursos de especialização. Oportunidade perdida para todos, para os que poderiam aplicar os conhecimentos aqui ou no país de origem.