Turquia: o fanatismo e o terror exibem as vestes do homem comum

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 20/12/2016 09h16
Atirador mata embaixador russo

A cena é espantosa, pouco importa a opinião que você tenha sobre o conflito na Síria. Ali está a voz do fanatismo, de arma em punho, pronto para matar e para morrer. Quando esses dois absolutos se encontram numa só obsessão, qualquer coisa pode acontecer.

Mevlut Mert Altintas — um policial de 22 anos que fez parte do batalhão de choque da polícia turca — matou, aos olhos de todos, nesta segunda, numa galeria de arte, o embaixador da Rússia na Turquia, Andrei Karlov. Em seguida, foi morto pelas forças de segurança. E deixou claro que essa seria a única maneira de tirá-lo de lá.
Observem: ele parece um homem comum. Devia sê-lo até ser cooptado pelas hostes do terror.

Vejam o vídeo e o que ele diz!

“Deus é maior (Allahu Akbar). Não se esqueçam de Alepo, não se esqueçam da Síria. Não se esqueçam de Alepo, não se esqueçam da Síria. Vocês não vão experimentar mais a sensação de segurança enquanto nossas cidades não estiverem a salvo. Afastem-se! Afastem-se! Só a morte pode me tirar daqui. Todos aqueles que forem responsáveis por essa perseguição irão pagar por isso.”

Ainda não se conhecem as vinculações de Altintas. Ou não era um qualquer ou não estava a serviço de um qualquer, uma vez que buscou, com o assassinato do embaixador russo na Turquia, provocar um terremoto nas relações entre os dois países, que ocupam lugares opostos na guerra.

A Turquia, do neoditador Recep Erdogan, apoia escancaradamente as forças contra Bashar Al Assad, tirano que governa a Síria legal. E não se trata de um apoio qualquer. Num ato de absurda irresponsabilidade, Erdogan permitiu que os terroristas do Estado Islâmico passassem em segurança por suas fronteiras.

A Rússia, em companhia do Irã, apoia as forças de Assad. A tensão já foi grande. Os turcos chegaram a derrubar um caça russo, alegando invasão de seu espaço aéreo. Nos últimos tempos, havia uma rota de aproximação. Os dois países chegaram a fazer um acordo para a retirada de civis de Alepo.

O fato de Altintas ser um policial, e de uma tropa de elite, torna tudo muito perigoso. Um dos temores dos setores laicos da política turca, e mesmo dos muçulmanos moderados, é que homens armados do Exército e das polícias sejam cooptados pelo extremismo. Até Erdogan, que passou a falar uma linguagem muito mais radical, teme esse risco. A razão é simples, como se viu nesta segunda: não existe um padrão de ataque.

Mais: o militar e o policial eventualmente cooptados têm acesso a armas e facilidade para se imiscuir em áreas de segurança.

Quem moveu a mão de Altintas, que, aos 22 anos, certamente não era chefe de nada? É alguém que quer manter a Turquia longe da Rússia e que, no momento, está perdendo a guerra.

E a guerra está sendo perdida pelos rebeldes e pelos terroristas, que também lutam entre si.

Os dois países foram muito comedidos na reação. Sabem que estão a lidar com nitroglicerina pura. Qualquer gesto mais brusco pode provocar grandes estragos.