Como o PT quer influenciar, mas esquece de usar a lógica

  • Por Jovem Pan
  • 20/05/2015 10h04
BRASÍLIA, DF - 01.02.2015: POSSE-SENADO - O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), durante cerimônia de posse dos novos senadores, plenário do Senado Federal, neste domingo. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)Renan Calheiros reeleito presidente do Senado

Reinaldo, você fala de novo do Senado. A derrota e a meia vitória do governo na casa foi só coisa de Renan Calheiros e Collor de Mello?

Então ficamos assim. Por alguma misteriosa razão, segundo versão influente que circula em Brasília, os senadores Renan Calheiros (PMDB—AL) e Fernando Collor (PTB-AL) teriam trabalhado contra a indicação de Luiz Edson Fachin porque ambos estariam bravos com o Planalto. Eles são investigados na Operação Lava Jato, e quem está colado no pé da dupla é o Ministério Público Federal — Rodrigo Janot, mais precisamente. Bem, para que isso faça sentido, é preciso considerar, então, que estão retaliando Dilma. Para que a retaliação, por sua vez, faça sentido, é preciso considerar, então, que Janot, em alguma medida, ou grande medida, atua a serviço do Planalto. Notem: caso se tire esse último dado da equação, o resto desmorona. Afinal, por que os senadores em questão iriam atingir Dilma se estão bravos com Janot? Curiosamente, omite-se esse último elemento da arquitetura explicativa.

Sigamos. Romero Jucá (PMDB-RR) trabalhou por Fachin e, vá lá, justiça se lhe faça, anunciou isso no dia mesmo da sabatina. Antecipou seu voto. É um parlamentar influente, e é possível que tenha cabalado alguns apoios. Mas e o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), um dos homens que, inicialmente, mais resistiam ao advogado paranaense? Pois é… Eu realmente fico comovido ao ler que Renan trabalhou contra a indicação de Dilma por motivos puramente pessoais, mas que Eunício, ora vejam!, mudou de lado só para não ganhar a pecha de radical e não entrar no que seria uma rixa pessoal de Renan. É mesmo?

Por que os que atribuem a resistência a Fachin a interesses contrariados não associam, afinal de contas, o apoio a Fachin a interesses satisfeitos? Eunício queria ou não o Banco do Nordeste para chamar de seu? Queria! Obteve ou não aquilo que queria? Obteve. Parece-me mais plausível associar o seu voto favorável a Fachin à nomeação do seu aliado do que a resistência de Renan e Collor à retaliação contra Dilma porque ela não manda Janot fazer o que os dois querem… Até porque, insisto, essa hipótese embute a suposição de que o procurador-geral atua em linha com o governo federal. Será que atua?

O DEM, tudo indica, é candidatíssimo a um ministério. E eu acho justo. O partido deu votos preciosos na Câmara para a aprovação do texto-base da MP 665. Cansados de fazer oposição, parece que alguns democratas resolveram agora atuar só em favor dos interesses do país. Alguns deles estão até desenvolvendo uma certa retórica jacobina a favor, que é o discurso mais ridículo de todos. Nada é tão patético como um adesista inflamado!

Segundo informa a Folha, senadores do DEM, na última hora, foram convencidos a dizer “sim” a Fachin. O partido conta com uma bancada de cinco parlamentares. Ronaldo Caiado (DEM-GO) certamente está fora dessa. Sobraram quatro: José Agripino (RN), Davi Alcolumbre (AP), Maria do Carmo Alves (SE) e Wilder Moraes (GO). Não sei quantos deles ou quais, a estar certa a apuração do jornal, descobriu súbitas qualidades no advogado. A legenda está num processo de fusão com o ainda governista PTB. Há democratas que dizem que tal movimento vai tirar um partido da base… Não sei, não… Há no ar um jeitão de que vai ser o contrário. Convenham: já houve melhores momentos para o DEM dar piscadelas ao PT. Fazê-lo agora não chega a ser uma prova de sagacidade.

De qualquer modo, que não se mude o fato relevante: nesta terça-feira, pela primeira vez, o Senado rejeitou a indicação de um embaixador para um cargo importante e deu 27 votos contra a indicação de um ministro para o Supremo. Há um esforço para transformar a vitória do Parlamento brasileiro na expressão de uma rixa pessoal de dois ou três senadores.

Pois eu prefiro ficar com os fatos e apontar os que votaram “sim” por motivos, digamos, muito tangíveis.