Editorial: Aécio já reconheceu vitória de Dilma, mas a presidente não fez o mesmo com a legitimidade da oposição

  • Por Jovem Pan
  • 31/10/2014 18h50
Brasília- DF- Brasil- 04/11/2014- O senador Aécio Neves chega ao Congresso Nacional. O senador foi recebido por simpatizantes que o aguardava na entrada (Wilson Dias/Agência Brasil)Aécio Neves é recebido com festa de correligionários e aliados em sua volta ao Senado após a derrota na corrida presidencial

O PSDB entrou com um perdido de auditoria nas urnas eletrônicas. Se me perguntarem se eu confio no sistema, vou dizer que sim. Já conversei com muita gente que entende do assunto, e essas pessoas me asseguram que seria muito difícil haver uma fraude. Melhor assim! Então não há mal nenhum em que se faça uma auditoria, certo?

Pedir que se verifique o sistema de segurança não corresponde a negar o resultado ou a não reconhecê-lo, como acusa o PT. Ao contrário: Aécio Neves, o candidato tucano à Presidência, telefonou para Dilma tão logo ficou claro que havia sido derrotado por margem muito estreita de votos. Quem, de modo deselegante, se negou a citar o nome do adversário no discurso da vitória foi ela. Ou por outra: o tucano reconheceu a derrota, mas a vitoriosa não reconheceu o papel institucional, legal, legítimo e democrático da oposição.

Sim, as denúncias se multiplicam. A quem interessa fazer a auditoria? Ao próprio regime democrático. Hoje, a desconfiança sobre a segurança das urnas não está restrita a esse ou àqueles grupos sociais. É generalizada. Infiro que parte da brutal abstenção — 21,1% no segundo turno, ou 30.137.479 eleitores – se deva não apenas à repulsa que a política tem provocado nas pessoas, mas também à desconfiança de que as urnas eletrônicas não são uma coisa séria.

A urna existe para os eleitores, não apenas para o conforto de um modelo ou de um órgão de Estado. Eu mesmo recebi denúncias feitas com nome, sobrenome, RG e CPF. Omito aqui os nomes porque não pedi autorização às pessoas para divulgá-lo — mas tenho tudo documentado, à disposição da Justiça Eleitoral.

Uma das mensagens informa:
“Sou presidente de mesa numa seção do Mackenzie — ele se refere a uma escola do bairro de Higienópolis, em São Paulo. Acabo de ser orientado a não lacrar o disquete/mídia da urna. Na verdade, não tenho nem envelope para lacrar, como é de costume. Foi dito que é em função da urgência para a apuração; que vão recolher rapidamente os disquetes, antes mesmo de entregar os outros materiais aos fiscais, para que seja levada rapidamente para apuração. Pra que a pressa se o Acre leva ainda mais não sei quantas horas?”

Outra diz ainda:

Prezado Reinaldo Azevedo,
eu voto no colégio Rio Branco, em frente ao Sion. Quando chegou minha vez de votar, no primeiro turno, a mesária me pergunta se eu já havia votado. Eu disse que não. Ela chamou o fiscal e me conduziu para a coordenadora-geral porque lá constava que eu já havia votado.
Sumiram com meu título eleitoral. No final, exigi 2a. via do meu título e certidão de quitação eleitoral, já que sou aposentada (ELA CITA O ÓRGÃO PÚBLICO PARA O QUAL TRABALHOU) e preciso da quitação, senão não recebo meus proventos.
Esperei por duas horas lá, até chegar minha segunda via e a quitação. E disse que eu só sairia de lá após ter votado.
Não sei como fizeram, mas o fiscal me conduziu à sala de votação e consegui votar. Tenho o comprovante da certidão de quitação eleitoral, datada do dia 05 outubro.
Esta é a prova.
É preciso sim, que o PSDB exija apuração das urnas.

É claro que questões assim não podem ficar sem resposta. Não entendi por que o PT ficou tão irritado. O PSDB não afirmou que Dilma é uma presidente ilegítima. Quer apenas que suspeitas sobre a falta de segurança do sistema sejam devidamente apuradas.

Como a Justiça Eleitoral só age sob provocação, o partido fez o que a democracia lhe faculta. É simples, objetivo e correto. Se o instrumento legal adequado não for o pedido de uma auditoria, que seja outro. Mas que é preciso ter mais certezas sobre a segurança do sistema, ah, isso é, sim.

Afinal, eleições livres e diretas são o sal da democracia, não é mesmo? Se a população desconfia do sistema, é o regime democrático que apodrece.