Editorial: Cunha passou de aliado do impeachment a empecilho

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 18/11/2015 15h26
BRASILIA, DF, 17.11.2015 - PMDB-CONGRESSO- O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, durante a abertura do Congresso da Fundação Ulysses Guimarães, no Hotel Nacional, nesta terça-feira, 17.(Foto:Ed Ferreira / Brazil Photo Press/Folhapress)Eduardo Cunha

A Folha de S. Paulo informa em reportagem o que já era dado como certo: Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, resolveu ganhar tempo. Não deve tomar nenhuma decisão agora sobre as denúncias por crime de responsabilidade contra Dilma Rousseff que estão na Casa. Entre elas, está aquela que leva a assinatura de Hélio Bicudo, Janaina Paschoal e Miguel Reale Jr. e que conta com o apoio da oposição e de movimentos pró-impeachment.

Pode parecer absurdo, mas assim são as coisas: Cunha não tem prazo para decidir. Aceita ou rejeita quando quiser. Em conversa com aliados num jantar havido na sua casa, na quarta, ele anunciou que só vai se pronunciar a respeito em 2016.

Cunha tem uma explicação verossímil, mas falsa, para a sua decisão: diz que é preciso esperar que o Congresso vote o relatório do TCU sobre as contas de Dilma relativas a 2014. Caso seja aprovado — e, pois, as contas, rejeitadas –, então o impedimento de Dilma ganharia um novo impulso.

Faz sentido? Faz. Nem tudo o que faz sentido é verdadeiro.

A verdade insofismável é que o presidente da Câmara decidiu manipular o impeachment e sua cassação ao mesmo tempo. Um se tornou função do outro. Enquanto contar com a possibilidade de dizer “sim” ao início da tramitação da denúncia — num quadro de economia deprimida e desorganizada –, espera contar com os votos do governismo no Conselho de Ética e eventualmente no plenário. E, obviamente, avalia que mantém aberta uma trilha com as oposições.

É evidente que se trata de um mau caminho. Cunha hoje está confundindo a sua própria sorte com a do país — sorte que, insisto, cedo ou tarde se cumprirá porque está selada. Se ele não for condenado pela Câmara por quebra de decoro, o que resultará na cassação de seu mandato, será condenado pelo Supremo se ainda deputado quando houver o julgamento. Ou pelo juiz Sérgio Moro caso o processo se estenda além de 2018, como é provável, e ele não consiga se reeleger — o que, parece-me, se afiguraria tarefa difícil. Ainda que se diga aqui e ali que ele tem cativa uma parte do eleitorado conservador, vamos convir: há outros conservadores com menos explicações a dar, não é mesmo?

Existem, e escrevi isso há muito tempo, motivos de sobra para que se aceite uma denúncia contra Dilma por crime de responsabilidade. Ainda que Cunha mande para o lixo todas as petições que lá estão, outras podem ser apresentadas. Uma coisa era um presidente da Câmara, dissidente do governismo, ter a ciência do poder político que detinha — inclusive o de detonar o processo que poderia resultar no impeachment.

Outra, muito diferente, é esse presidente da Câmara usar essa faculdade para tentar livrar a própria pele. O jogo ao qual Cunha se dedica agora passou a ser perverso e pervertido: maltrata uma instância da democracia e, ao mesmo tempo, a corrompe institucionalmente com questões menores. Hoje, ele não é nem aliado nem adversário do impeachment. Joga apenas em seu próprio benefício.

Os grupos que defendem o impeachment e as oposições não têm mais no presidente da Câmara nem mesmo um aliado tático — e não havia nada de errado nisso, desde que não lhe abonassem, como não abonaram, os malfeitos.

Ao contrário: ele passou a ser um claro empecilho ao impeachment à medida que só pensa em salvar a própria pele e decidiu fazer da possibilidade de impedimento da presidente da República a sua improvável tábua de salvação.

Cunha, um político já antigo, teve uma ascensão meteórica ao topo nos últimos oito anos. E caiu ainda mais depressa.