Editorial – Denúncia velha contra Temer volta a esquentar com fim do sigilo da delação de Sérgio Machado

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 15/06/2016 15h13
25/04/2016 - Vice- presidente Michel Temer - fotos solo Michel Temer, Vice-Presidente, fotos solo Foto: ASCOM- VPRMichel Temer

Xiii, lá vem mais do mesmo, mas com nova temperatura.

Nesta terça, o ministro Teori Zavascki fez mais do que negar o pedido de prisão de Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney. Ele também levantou o sigilo da delação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro. E um vazamento que veio a público no dia 28 de maio volta a esquentar, agora com o delação tornada pública.

Machado afirma que Michel Temer, em 2012, então presidente do PMDB, lhe pediu R$ 1,5 milhão para a campanha do candidato do partido à Prefeitura de São Paulo, Gabriel Chalita. O dinheiro teria sido repassado, na forma de doação legal, pela Queiroz Galvão, uma das empreiteiras investigadas no petrolão, mas seria fruto, sim, de propina.

Segundo Machado, o contexto da conversa, que teria ocorrido na Base Aérea de Brasília, deixava claro que Temer tinha ciência de que se tratava de dinheiro irregular. Chalita diz ignorar o ocorrido. Em maio, Temer já havia negado ter feito tal pedido.

Também nesse caso, Machado agiu de modo muito particular. Tentando emprestar verossimilhança às denúncias que faria, ele comentava os respectivos temas ao telefone, em conversas gravadas. Foi o que fez, então, com José Sarney, uma de suas vítimas prediletas. Eis o bate-papo que vazou em maio:

MACHADO: Você acha que a gente consegue emplacar o Michel sem uma articulação do jeito que esta…
SARNEY: Não. Sem articulação, não. Vou ver o que acontecendo, vou no Michel hoje…

Como que para estimular a conversa, Machado revela que contribuiu com Temer, ajudando na campanha do “menino”, que para os investigadores é Gabriel Chalita, candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PMDB em 2012:

MACHADO: O Michel presidente… lhe dizer… eu contribuí pro Michel.
SARNEY: Hum.
MACHADO: Eu contribuí pro Michel… Não quero nem que o senhor comente com o Renan… Eu contribuí pro Michel para a candidatura do menino [Gabriel Chalita, do PMDB-SP]… Falei com ele até num lugar inapropriado, que foi na base aérea.

Sarney aparenta preocupação com a revelação e quer saber se uma ajuda que ele próprio recebeu de Machado é do conhecimento de mais alguém:

SARNEY: Mas alguém sabe que você me ajudou?
MACHADO: Não, sabe não. Ninguém sabe, presidente.

Retomo
É evidente que o, digamos, reencruamento desse assunto vai jogar água no moinho dos tolos que falam em novas eleições, como se elas fossem possíveis agora. Até são, cumpridas algumas precondições: impeachment (ou renúncia) de Dilma e renúncia de Temer ou, então, cassação, pelo TSE, da chapa que elegeu a dupla.

Nesse caso, segundo a Constituição, marcam-se novas eleições diretas em 90 dias se os impedimentos aconteceram até 31 de dezembro deste ano; ou indiretas em 30 dias se a partir de 1º de janeiro do ano que vem. E ponto final. Não há espaço, já disse isso aqui muitas vezes, para uma emenda interrompendo mandatos.

É evidente que uma nova disputa eleitoral agora contribuiria para levar o país para o abismo. Além do risco das pregações extremistas de direita e de esquerda, os candidatos tenderiam a fazer um campeonato de promessas, competindo para ver quem prometeria gastar mais. E isso num momento em que o país precisa cortar gastos.

É claro que a denúncia contra Temer terá de ser investigada. E se for verdadeira? Ora, ele terá de pagar na forma da lei. Em qualquer caso, o país dispõe de instituições para segurar a bucha.

Nova eleição, ao arrepio da Constituição, é que seria, sim, um golpe.