Editorial: Em tempos normais, o “sim” da oposição a Vital do Rêgo seria até óbvio; mas os tempos não são normais!

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 03/12/2014 18h18

A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) sabatina o senador Vital do Rêgo para o cargo de Ministro do Tribunal de Contas da União (TCU)

A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) sabatina o senador Vital do Rêgo para o cargo de Ministro do TCU

À mulher de César não basta ser honesta. É preciso também que pareça honesta. E está na hora de a oposição se comportar, sim, como a mulher de César. Posso até achar razoáveis os motivos que levaram os senadores de oposição a aprovar o nome de Vital do Rêgo para o Tribunal de Contas da União (TCU). Afinal, trata-se de uma indicação na vaga do próprio Senado, que tem escolher três nomes no tribunal. E o Senado pertence à República, não ao governo. Por esse caminho, em tempos normais, reforça-se a instituição.

Mas os tempos não são normais. São tempos sombrios. Vivemos sob a égide de um partido que pretende se colocar como um ente de razão a dominar toda a sociedade; que se organiza para que todas as escolhas se façam tendo em vista as necessidades da máquina partidária; que entende que cada escolha dos indivíduos deva ser considerada virtuosa ou criminosa apenas na medida em que atende ou não às necessidades dessa máquina.

Nesse contexto, endossar para o TCU o presidente das duas CPIs da Petrobras — que, como se sabe, não chegarão a lugar nenhum porque as forças que as dominam não estão interessadas na verdade —; endossar para o tribunal um nome escolhido a dedo para, de fato, poupar os malfeitores; endossar uma indicação que, no tribunal, vai herdar justamente o processo da Petrobras, bem, endossar essa escolha alegando apreço à instituição constitui um erro grave. E a oposição errou.

Sim, os senhores senadores de oposição deveriam ter seguido o voto de Jarbas Vasconcelos, do PMDB de Pernambuco, o único a recusar a indicação de Vital do Rêgo. Ele deixou claro que a questão não era pessoal ou partidária. Seu voto trazia outro simbolismo: era contra o que representava o governo Dilma.

Lembro aos senhores senadores de oposição — e lá está Aécio Neves, presidente do PSDB — que a população não é formada por cientistas políticos nem por estudiosos do Parlamento. O homem comum, com grande sabedoria, não quer é que o enganem, não quer é ser feito de trouxa. Não quer é ser enredado nas relações corporativistas do Parlamento.

Em dias sombrios, é preciso tomar cuidado com o excesso de pragmatismo. Aécio citou São Paulo, o Apóstolo, no dia em que admitiu a derrota, deixando claro que a luta da oposição continua. Afirmou ter travado o bom combate sem perder a sua fé. Pois é com o mesmo São Paulo que encerro este comentário. Na primeira Epístola aos Coríntios, São Paulo lembra que o som da cítara e da flauta não podem se confundir. Se, em suma, o toque da trombeta não é claro, ninguém se prepara para a batalha. A oposição errou. Em nome dos indignados com a roubalheira na Petrobras, o único som possível da trombeta oposicionista era o “não” a Vital do Rêgo.