Editorial: Entenda o encontro da fundação do PMDB e a mensagem que sai dele

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 17/11/2015 16h35
BRASÍLIA, DF - 17.11.2015: PMDB-REUNIÃO - Michel Temer discursa - O vice-presidente Michel Temer, o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, o presidente da Câmara Deputados, Eduardo Cunha, o ex-presidente José Sarney, o presidente da fundação Ulysses Guimarães, Moreira Franco, e demais lideranças participam do Congresso do PMDB no Hotel Nacional, em Brasília, nesta quarta-feira. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)Michel Temer em evento do PMDB

A Fundação Ulysses Guimarães realiza nesta terça o seu congresso. Não é um encontro do PMDB, mas é evidente que o documento “Uma Ponte Para o Futuro” foi escrito para servir de diretriz para os próximos anos — ou para dias mais urgentes, a depender do rumo que tomem as coisas.

Aqui e ali leio e ouço muxoxos. “Ah, é o PMDB de sempre!”, “É o PMDB morde-e-assopra”… Por que isso? Ora, como vocês ouvirão daqui a pouco, alguns fizeram discursos entusiasmados em favor do rompimento do partido com o governo. Réplicas de um boneco nada abonador da presidente Dilma, que circula por aí, foram brandidos. Michel Temer, vice-presidente da República e presidente do PMDB, discursou, destacou a gravidade da crise, pregou a necessidade de coragem e, numa entrevista posterior, disse o que me parece óbvio: o partido não vai romper com o governo agora.

Será esse comportamento dito ambíguo do PMDB tão raro na base aliada? Ora, o documento “Uma Ponte Para o Futuro” é muito menos oposicionista do que os dois produzidos pela Fundação Perseu Abramo, do PT, que, entre outras delicadezas, pede, na prática, a cabeça do ministro da Fazenda — obedecendo, de resto, a uma orientação de Lula.

Se o texto do PMDB reconhece a gravidade da crise — de maneira, aliás, muito lúcida — e propõe saídas que qualquer pessoa de bom senso consideraria razoáveis, alinhadas com o regime que temos, o da economia de mercado, os produzidos pela petelândia são um primor de negação da realidade.

Segundo os gênios comandados por seu Marcio Pochmann, a crise econômica é uma invenção dos neoliberais e dos derrotados nas quatro últimas eleições para impor à presidente vitoriosa uma agenda. Claro, eles seriam incapazes de dizer por que Dilma, então, uma vez vitoriosa, não lidera, ela própria, um modelo alternativo. Petistas gostam de fingir que aritmética é questão de opinião.

O texto do PMDB, ao contrário, acerta no diagnóstico e na profilaxia. Diz coisa com coisa quando afirma, por exemplo, que “o Estado brasileiro vive uma severa crise fiscal, com déficits nominais de 6% do PIB em 2014 e de inéditos 9% em 2015, e uma despesa pública que cresce acima da renda nacional, resultando em uma trajetória de crescimento insustentável da dívida pública que se aproxima de 70% do PIB, e deve continuar a se elevar, a menos que reformas estruturais sejam feitas para conter o crescimento da despesa”.

Reitero: os documentos produzidos pelo PT, que comanda o governo, ignora esse fato e diz que isso tudo não passa de berreiro da oposição.

O texto da Fundação Ulysses Guimarães defende, por exemplo, que:
– se estabeleça um limite para as despesas de custeio, inferior ao crescimento do PIB, eliminando vinculações orçamentárias e indexações que engessam o Orçamento;

– que a política de desenvolvimento passe por privatizações e concessões;

– que o modelo de exploração do petróleo volte a ser de concessão, como era — quando funcionava –, com a Petrobrás mantendo apenas o direito de preferência;

– que o país se dedique a pactos bilaterais com outros países e blocos econômicos, com ou sem o Mercosul, que hoje virou um peso;

– que se crie um programa de avaliação das políticas públicas. Lê-se lá: “O Brasil gasta muito com políticas públicas com resultados piores do que a maioria dos países relevantes”. E isso é absolutamente verdadeiro.

Eu não sei, reitero, o que o PMDB vai fazer, se sai ou se fica no governo. Acho que fica, com impeachment (por razões óbvias) ou sem ele — pelo menos até determinado ponto da trajetória do governo Dilma.

O que me parece claro, e é isto o que me interessa num encontro dessa natureza, é que o PMDB elaborou um programa de oposição ao petismo que está no governo. “Ah, mas fez isso estando no poder?” Pois é… O PT agiu de modo idêntico, só que do outro lado: sua fundação elaborou prolegômenos para um programa de governo de… esquerda.

Nota: Eduardo Cunha chegou a ser vaiado. Não foi nada estrondoso, mas foi. Fez um discurso duro, pregando rompimento com o Planalto. Pois é… Seu discurso já chegou a ter mais credibilidade.

Hoje, o que se espera dele tem um prazo bem mais curto: que decida logo se aceita ou não a denúncia contra Dilma, independentemente de sua situação pessoal. O fato é que o evento desta terça está muito além da sua sorte pessoal.

O PMDB escolheu o rumo certo. A questão agora é saber se vai mesmo trilhá-lo.