Editorial – Na dialética galhofeira da vida, sejamos gratos aos crimes de responsabilidade cometidos por Dilma

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 09/08/2016 14h15
Dilma

Acho que é chegada a hora de a gente ser grato a Dilma Rousseff.

Acho que é chegada a hora de a gente ser grato aos ladrões que tomaram conta do governo.

Calma! Eu explico.

Sintetizemos assim, logo de cara, esta quadra da política brasileira: Dilma cometeu crime de responsabilidade contra a Lei Fiscal. Incidiu no Inciso VI do Artigo 85 da Constituição, com o crime devidamente descrito nos Artigos 10 e 11 da Lei 1.079. Pena para o crime: impeachment. Mas nem a Constituição nem a lei são guilhotinas fatais: ambas passam pelo crivo político.

As duas Casas de representação são chamadas a se pronunciar: se a Câmara não fornecer ao menos 342 votos, a denúncia nem chega ao Senado. Se, nessa Casa, não houver ao menos 54 adesões, o impeachment não acontece.

Então, meus queridos ouvintes e telespectadores, Dilma só vai perder o mandato porque não conseguiu miseráveis 172 votos, de 513 possíveis, na Câmara, e 28 de um total de 81 no Senado. Alguém que chega ao quinto ano de mandato, depois de ter sido a supergerentona do PAC, eleita com o apoio dos dois maiores partidos do país, sem ter conseguido conquistar a adesão de ao menos um terço da Câmara e do Senado, vamos ser claros, essa pessoa não tem condições de governar o país.

Mas por que não conseguiu?
Mas por que Dilma não conseguiu o apoio necessário do Congresso? Será que ela se negou a fazer as trocas que caracterizam o chamado Presidencialismo de coalizão? Será que ela se negou a abrir a porteira dos ministérios e das estatais para os partidos da base aliada? Será que ela se negou a lotear a administração e, por isso, foi punida pelos políticos? Será que ela sentou sobre os cofres públicos e foi severa demais no uso da grana, de sorte a se indispor com tubarões da economia?

A verdade está precisamente no contrário. Ninguém fez, como Dilma, a política do “é dando que se recebe”; ninguém, como a presidente, abriu com tanta generosidade as burras para meia-dúzia de espertos. Ela cumpriu cada tarefa e cada etapa da baixa política. E por que a coisa desandou?

Porque ela quebrou o país. É simples. Dilma mergulhou o Brasil na pior recessão de sua história. E, dadas as bobagens anteriores, nem o fez por gosto, mas por necessidade. Os erros estavam sendo cometidos antes, com ênfase especial no ano de 2014, quando ela disputou a reeleição.

Sim, Dilma cometeu crime de responsabilidade. Sim, na sua gestão, o sistema de roubalheira, que ela herdou, atingiu o estado de arte. Mas vamos ser claros? Nem uma coisa nem outra, infelizmente, derrubam presidente no Brasil se a economia estiver crescendo e se os pobres estiverem, de algum modo, sendo beneficiados — ainda que o preço futuro de algum benefícios venham a ser, depois, recessão, desemprego e perda de renda.

Quem derruba um presidente é a política em razão das besteiras que ele fizer na economia.

E é por isso que a primeira e a última palavras, num processo de impeachment, são dadas pelos políticos. E por uma maioria esmagadora deles. A primeira é da Câmara, e a última é do Senado.

Ouvi há pouco as falas dos senadores Paulo Paim (PT-RS) e Fátima Bezerra (PT-RN). Os dois insistem naquela ladainha chata do golpe e afirmam que Dilma está caindo porque, ora vejam, é a presidenta da redistribuição de renda e das conquistas dos trabalhadores — razão por que estaria sendo deposta pelas elites.

Ora, a verdade está precisamente no contrário: Dilma só está caindo porque a economia passou a punir severamente os mais pobres, o que os levou a se descolar do governo. Tudo isso em meio a uma formidável roubalheira, com o crime de responsabilidade devidamente cravado na sua biografia.

Eu lhes proponho agora um filme de terror: imaginem uma Dilma que tivesse seguido direitinho os rigores da lei fiscal, que liderasse um governo de pessoas honestíssimas.

Fosse a mesma a política econômica, estaríamos no pior dos mundos. Aí, sim, Dilma nos empurraria para o abismo, para um caminho sem volta.

Na dialética galhofeira da vida, sejamos gratos aos crimes de responsabilidade cometidos por Dilma; sejamos gratos aos ladrões. O conjunto da obra vai nos livrar de uma presidente que seria muito mais perigosa se fosse de uma pureza angelical.