Editorial – Não me vendi ao PT rico. Vai ver decidi me vender ao PT pobre!

  • Por Reinaldo Azevedo/ Jovem Pan
  • 12/05/2017 14h58
jornalista Reinaldo Azevedo

Um amigo me manda um troço engraçado.

Augusto de Arruda Botelho, presidente do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, com quem nunca falei, escreveu o seguinte no Facebook:

“Cortando os pulsos, informo aos senhores que hoje em dia o Reinaldo Azevedo é um dos jornalistas mais sensatos na análise do cenário político/jurídico lavajatês”.

Ô Botelho! Isso lá é jeito de elogiar?

Lembrou-me um amigo que veio à minha casa em janeiro para me visitar. Como sabem, tive um aneurisma cerebral e passei por uma cirurgia. Eu me dizia, então, uma pessoa de sorte, reproduzindo o que me informaram os médicos: tivera a dor sentinela, um aviso da existência do aneurisma. É uma ocorrência rara. No mais das vezes, ele se rompe, e as consequências costumam ir do ruim ao péssimo… Na verdade, nesse caso, fui um sortudo: tive três dessas dores em dois dias. A primeira se deu na manhã do dia 23 de dezembro. Fui internado no dia 27…

Bem, ao amigo. Despedindo-se, ele me disse:

— Reinaldo, você é mesmo um homem de sorte!

— Ah, também acho. Imagine, três dores-sentinela…

— Não estou falando disso. Falo de você, que tem um temperamento quase insuportável (é mentira!), ter conseguido uma mulher como a sua. Ela é inteligente, bonita, educada e ainda gosta de você depois de 31 anos!

— Muito gentil da sua parte! Agora eu o desafio a me fazer um elogio sem me ofender…

Para quem não entendeu: trata-se de um querido e antigo amigo, que me vê um pouco como um filho meio topetudo…

Ao ponto.

Não conheço Arruda Botelho. Vejo na Internet que, além de presidente do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, é sócio do escritório de advocacia “Cavalcanti & Arruda Botelho”. O primeiro sobrenome refere-se a Dora Cavalcanti, que foi advogada de Marcelo Odebrecht na fase pré-delação. Não sei se é ainda.

Falei com amigos da área por WhatsApp, e me dizem que é um profissional competente, sério, respeitado.

Assim, regozijo-me com o que há de elogioso no textinho: “hoje em dia o Reinaldo Azevedo é um dos jornalistas mais sensatos na análise do cenário político/jurídico lavajatês”

Mas por que ele escreve que afirma isso “cortando os pulsos”?

Vou me atrever a interpretar. É possível que ele se identifique com um pensamento mais à esquerda. Assim, ver alguém da direita liberal — que os esquerdistas transformaram num emblema do que deve ser combatido — a dizer o que ele próprio considera certo pode ser um pouco constrangedor.

Fazer o quê? Desde que li a “Ilíada”, sei que é possível admirar um adversário sem, no entanto, se juntar a ele.

Relaxe, Botelho! Nada de cortar os pulsos.

Mas compreendo a sua estupefação. Vejo a covardia de alguns nomões do direito — tanto os conservadores como os ditos progressistas — e constato mais uma vez: a covardia é um troço asqueroso em si, assim como a deslealdade.

Se um “desleal” do lado de lá se oferecer para trair os seus em meu benefício ou da minha causa, cuspo na cara dele.

Por consequência, existem duas virtudes em si: coragem e lealdade.

É preciso, inclusive, ter a coragem de ser leal àquilo que se pensa.

Nunca perguntei, e jamais perguntarei, se a minha opinião será útil ao PT, ao PSDB, ao PMDB, à PQP.

A minha opinião há de ser útil a apenas uma instância: as minhas convicções.

E ponto!

Cheguei a ser o inimigo público nº 1 do petismo. Hoje em dia, ao ver Lula ser vítima de um comportamento impróprio de Sergio Moro, aponto. E os desavisados então dizem: “Olhe, Reinaldo virou a casaca”.

Pois é… Quando o PT tinha todo o poder, alguns dos que me atacam hoje estavam de joelhos para o partido. Ou se apresentavam como candidatos a “pensadores” do regime. A parvoíce, no entanto, os impediu de chegar lá. Eu, por meu turno, sentava a pua no partido todo-poderoso. O PT, reitero, conseguiu fechar a minha revista.

Hoje, o partido está por baixo. Se virei a casaca, vai ver sou mesmo uma besta ao quadrado. Quando eles estavam no auge, em vez de vender a minha adesão a peso de ouro, preferi o confronto; preferi perder algo que me era intelectualmente caro. Agora que eles estão na pindaíba, vai ver passei a receber a peso de ouro.

Esses vagabundos, em especial os que não conseguem dizer à Receita a origem de sua vida nababesca, medem os outros por sua régua.

Botelho, não corte os pulsos! O Estado de Direito começou a vencer a guerra.