Editorial – O estupro como estandarte

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 03/06/2016 16h19
SP - PROTESTO/VIOLÊNCIA/MULHER - GERAL - Feministas e integrantes de grupos sociais se reúnem no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, região centro-sul da capital, para o ato "Por todas Elas", contra a cultura do estupro e a violência praticada contra as mulheres, na tarde desta quarta-feira, 01. O grupo deve seguir em caminhada até a Praça Roosevelt. 01/06/2016 - Foto: CRIS FAGA/FOX PRESS PHOTO/ESTADÃO CONTEÚDOCinco mil protestam contra o machismo e o estupro na Avenida Paulista - AE

O caso do possível estupro coletivo havido no Rio explica por que a esquerda estreitou tantas humanidades no peito e, onde quer que tenha chegado ao poder, construiu o reino da hipocrisia e da morte. Pode-se ir além: clarificam-se os mecanismos mentais por meio dos quais o crime se torna um instrumento virtuoso a serviço da pretensa justiça. Vamos lá.

Na quarta-feira (1º), muitas mulheres e alguns homens –5.000 ao todo, segundo os manifestantes– foram às ruas de São Paulo para protestar contra a tal “cultura do estupro”, que, até agora, não entendi direito o que é porque não foi definida por ninguém. Perguntei a uma feminista se o pedreiro da obra que assovia o seu clichê é evidência da dita-cuja. Ela disse que sim. Eu estou preparado para enfrentar um mundo em que estupro não é nem metáfora nem metonímia.

Colunistas desta Folha que empregaram a expressão se esqueceram de caracterizar o conceito. Como diria Umberto Eco, preferiram cutucar o meu braço e dar uma piscadela, como a dizer que estamos todos subentendidos. No que me diz respeito, não subentendi nada. Ou os valentes dizem do que estão falando, para saber se concordo ou não com os pressupostos, ou continuarei a perguntar: “Mas que diabo é isso?”.

Uma reportagem do “Estadão” ensaiou uma definição pela via do exemplo, que costuma ser o refúgio da falácia teórica. Lá se lia: “Comentários e olhares vindos de homens que observavam o protesto de fora reforçavam, durante o próprio ato, as reivindicações femininas. Não foi incomum ao longo do ato casos de homens fotografando manifestantes que protestavam sem blusa ou de sutiã ou fazendo comentários sobre seus corpos”.

Pensava eu que as manifestantes tiravam suas blusas para, afinal, expor seus corpos (ainda que em sinal de protesto), que, por consequência, serão vistos… Não! Agora é necessário ter uma disciplina do olhar. No universo de uma cultura não machista, o corpo em evidência de uma mulher deve ser tão provocante como uma gaveta vazia.

Eu me dei conta, então, de que a indefinida “cultura do estupro” praticamente vem junto com o pênis, menos, obviamente, no caso de machos superiores como Marcelo Freixo. Ele até pode pertencer a um partido que teve como ideólogo e fundador um sujeito que pôs fogo em crianças, mas, justiça se lhe faça!, seu baixo ventre não é dotado das mesmas intenções criminosas do da maioria dos outros machos. Que bom!

Não tardou para que os manifestantes lançassem palavras de ordem “contra o golpe”, contra Eduardo Cunha e, ora vejam, em defesa do aborto, cuja descriminação passou a ser considerada uma causa contígua à do fim da… cultura do estupro! E eu pude, então, como no poema, ver em alguns cartazes abrir-se “a vereda para a terra dos mortos”. Ali também se reivindicava a volta do governo que produziu, junto com o maior assalto aos cofres públicos de que se tem notícia, a maior recessão da história.

Que coisa!

Àquela altura, a garota cuja história motivou o protesto já era menos do que um meme da internet. Tinha se tornado apenas o pretexto para um feixe de causas. As esquerdas só mataram tanta gente e com tanta determinação porque nunca se interessaram por pessoas reais. A estuprada, assim, deixou de ser uma pessoa para ser um estandarte: pelo fim da cultura do estupro, pela volta de Dilma, pela descriminação do aborto…

Tempos bárbaros.