Editorial: A prova de que temos um governo contra a sociedade: Bolsa dispara e dólar em queda

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 03/12/2015 16h11
Bovespa encerra segunda-feira em alta de 1

Enquanto escrevo este post, a Bolsa opera em alta de 4,13%, e o dólar, em queda, está cotado a R$ 3,7799 para compra e R$ 3,7809 para venda, com queda de 1,4%. Sabem o que é isso, não? Chama-se efeito impeachment.

Não poderia haver melhor retrato de que temos hoje um governo contra sociedade, que, ao longo de um ano, foi se deslegitimando.

Deslegitimou-se quando, logo nos primeiros dias, deixou claro que o Brasil tinha sido vítima daquele que deve ser um dos maiores estelionatos eleitorais das democracias contemporâneas. É frequente que governos não consigam fazer tudo aquilo que prometem. Mas é raro que governos se vejam na contingência de fazer o contrário do que prometem.

Deslegitimou-se porque o partido que está no poder, diante das evidências de seus malfeitos e de seus crimes, prefere, em vez de fazer, ao menos, um decoroso mea-culpa, acusar conspirações inexistentes.

Deslegitimou-se porque, ainda que não houvesse uma crise política, cuja origem é a cleptocracia que se assenhoreou do poder, fabricou uma das maiores crises econômicas da história.

Deslegitimou-se porque, em vez de ficar atento aos críticos, que apontavam as falhas do modelo em curso — que remontam, de maneira mais clara, já ao segundo mandato de Lula –, preferiu desqualificar os que ousavam apontar os erros na condução da política econômica.

Estavam e estão obviamente errados aqueles que sustentam que o eventual impeachment da presidente Dilma Rousseff vai trazer grandes turbulências ao país.

Os únicos que podem gerar algum calor, mas nenhuma luz, são os militantes de extrema esquerda. Mas isso eles farão sempre porque é de sua natureza e de sua vocação.

Ninguém vive sem esperança. Nem pessoas nem países. Dilma tem de entender que se esgotou a confiança da esmagadora maioria dos brasileiros de que ela consiga, ao menos, ser uma boa conselheira na crise.

O melhor que pode fazer em benefício dos brasileiros, que ela diz respeitar, é renunciar ao mandato. Para que o país, sem o peso que ela passou a representar, tente encontrar mais cedo o seu caminho.

O que a presidente espera que vai acontecer agora, além da contínua deterioração das expectativas, enquanto ela permanecer no governo?

Ela sabe muito bem que mesmo o seu partido já não serve mais como núcleo mínimo de governabilidade. Ou Dilma não assistiu a uma óbvia rebelião da máquina partidária?

A presidente diz que Cunha tentou uma chantagem; ele desmente e afirma que o Planalto é que quis negociar. Quem está falando a verdade? Provavelmente, os dois lados. O fato inconteste é que o governo ordenou que os três deputados do PT votassem em favor do presidente da Câmara, mas eles preferiram seguir a orientação da legenda e fazer o contrário, mesmo sabendo que isso implicaria a aceitação da denúncia contra Dilma.

O que isso quer dizer? O óbvio: em defesa do partido — e é claro que o voto em Cunha tinha tudo mesmo para ser um peso enorme a carregar –, os petistas podem entregar Dilma às cobras. Não estão nem aí.

Ora, isso tem outra implicação: os petistas já começam a dar a luta por perdida e já pensam no momento pós-ruína, no que vai sobrar da legenda. E vamos ser claros: Dilma não está nos planos porque nunca esteve.

Alguém tem alguma dúvida de que a legenda faria por Lula o sacrifício que não fez por Dilma? Lá atrás, no muito antigamente, sugeri a ela: saia do PT, livre-se dessa turma, fique sem partido e tente montar um ministério de transição, encaminhando, inclusive, uma emenda parlamentarista. Tivesse me ouvido, talvez tivesse conseguido salvar o seu mandato.

Agora já não há mais tempo. Ou melhor: há muito, esse tempo se esgotou. Agora, a sociedade já precificou o “Fica, Dilma” e “Sai, Dilma”. E o primeiro é brutalmente mais caro.

A reação da sociedade ao anúncio da possibilidade do impeachment — os brasileiros estão em paz, e o que se colhe são manifestações de alegria — e de uma parcela desta sociedade, os mercados, indica o óbvio: o país conta com instituições sólidas, capazes de absorver o impacto — positivo! — da saída da presidente.

Golpe, crise institucional, convulsões… Esse vocabulário é estranho à realidade em curso. Se existe alguma chance de instabilidade, ela deriva justamente é do risco de continuidade de um governo que rompeu seus vínculos com a sociedade brasileira.

O Brasil cobra de Dilma e do PT uma reparação à altura do agravo. E o preço mínimo que eles têm a pagar é deixar o governo, sem prejuízo das consequências penais pelo muito mal que fizeram à quase totalidade dos 200 milhões de brasileiros.

Saia enquanto há solução pacífica para a crise, Dilma!