Editorial – Soltura de José Dirceu terá impacto zero em casos Palocci e Cunha

  • Por Reinaldo Azevedo/ Jovem Pan
  • 03/05/2017 14h22
EFE/ARCHIVO/Hedeson AlvesEFE - José Dirceu quando foi preso pela Polícia Federal de Curitiba em agosto de 2015

Poucas frases já me irritaram tanto como a tal “Sou brasileiro e não desisto nunca”. Fica parecendo que ser brasileiro é mesmo uma questão de insistência e persistência. Pra quê? Pra ter direito a se orgulhar da pororoca? Por que alguém lutaria tanto para demostrar ser brasileiro? Para “morrer de susto, de bala ou vício? Bem, eu não me sinto imbuído de missão nenhuma. Enquanto puder dizer e escrever o que há e o que vejo, eu o farei. E não preciso de seguidores. O país é que precisa de pensadores. Vamos ver.

Por três votos a dois, o Supremo concedeu habeas corpus a José Dirceu: posicionaram-se contra Edson Fachin, o relator do petrolão, e Celso de Mello. Gilmar Mendes desempatou o dois a dois — Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski também votaram a favor. Foi uma decisão de natureza técnica, não política. Se a Lava Jato e setores da Justiça de primeira instância entenderam que o tribunal fez uma advertência, então cumpre confessar o que fizeram de errado, não? Ou advertência pra quê?

A extrema direita chulé e as “cheerleaders” de Facebook saíram vomitando suas bobagens e suas teorias conspiratórias. Tudo seria uma armação para enviar um recado, ora vejam!, a Antonio Palocci e Eduardo Cunha: “Vocês já não precisam fazer delação porque a coisa está resolvida; vão deixar a cadeia também”.

Em primeiro lugar, quem disse que isso vai acontecer? É fácil saber: é alguém que não quer que isso aconteça. Acredita que, ao denunciar a suposta tramoia, intimida o tribunal: “Olhem o que estão falando de nós…”. A absurda pressão que fez Dallagnol para Dirceu continuar preso, afrontando o Supremo de modo grotesco, fala por si mesma. Eis os profetas 100%: se aquela dupla receber o HC, os valentes dirão: “Não falamos”? Se não receber, optarão pela vergonha alheia: “Não fosse o nosso alerta…”.

Em segundo lugar, há uma falha de lógica elementar nessa afirmação, o que não me espanta. Além de uma confissão hipócrita. Começo por esta: a Lava Jato e seus fiéis sempre negaram que as preventivas tivessem o objetivo de estimular as delações. Agora se diz que Palocci e Cunha desistirão do expediente caso sejam soltos. Mas, afinal, o MPF e a Justiça de Moro usaram ou não a prisão cautelar para arrancar delações? Tudo indica que a intenção era essa. Mas será que foi isso que moveu os delatores?

Qual é a falha de lógica e de história, quando nos lembramos que empreiteiro Ricardo Pessoa, por exemplo, só fechou acordo depois de solto? A delação só tem importância na definição da pena. Vamos pegar o caso de Marcelo Odebrecht? POR QUE ELE FEZ O ACORDO? POSSO ASSEGURAR QUE NÃO FOI PARA SAIR DA CADEIA, MAS PARA NÃO FICAR NA CADEIA. Antes que os cérebros menos complexos entrem em parafuso, explico.

Em março do ano passado, Moro já condenou Marcelo a 19 anos e quatro meses e manteve a preventiva. Se o empreiteiro não tivesse decidido delatar, seria logo julgado pelo TRF4, com condenação mantida. E o STF já bateu o martelo: a pena de prisão pode ser executada a partir da segunda instância.

Calma! Esses quase 20 anos seriam fichinha perto do que viria, não? Cem? 150? Ora, estando já condenado, com a certeza de outra penca de punições, será que Marcelo fez a delação só porque se cansou da preventiva? Será que não pensava, deixem-me ver, nos próximos 20 anos?

Com ou sem preventiva, caso as imputações contra o ex-ministro da Fazenda evoluam para uma condenação compatível com as coisas de que é acusado, também ele mofará na prisão. Com a delação, é mel da sopa. Sem ela, seria só fel…

Para finalizar
Por que os senhores procuradores e juízes inconformados não confessam que o que eles querem mesmo é a execução da pena de prisão já na primeira instância? Seria um absurdo, mas seria um absurdo honesto!