Especial Longevidade: Incertezas na aposentadoria preocupam idosos

  • Por Jovem Pan
  • 15/08/2016 09h25
Idoso olha o jornal - Freeimages

O motorista Milton não esconde a ansiedade – nem os cálculos – quando o assunto é a sua aposentadoria: “Faltam 23 meses, né. A gente conta os dias. Porque eu acho que esses dois anos vão ser como 20 anos, vai demorar muito”.

Com quase 35 anos de contribuição e 60 de idade, seus planos incluem uma visão bucólica da vida. “Eu quero ir para uma bela de uma praia, ficar sossegado porque já tem meu barraquinho lá, pescar e cuidar da velhinha”.

Sonhos como esses podem ficar cada vez mais distantes. A saúde financeira da Previdência Social não vai bem e deve ser submetida a um profundo e invasivo tratamento de choque. Frear o ingresso de novos beneficiários no sistema é a alternativa mais cotada, principalmente em um momento de crise.

Se as regras atuais não forem alteradas, apenas os récem aposentados, a valores de hoje, representarão um gasto médio adicional de R$ 25 bilhões a cada cinco anos.

O salto acompanha o envelhecimento da população e a maior expectativa de vida. Até 2050, o país terá o triplo de idosos do que tem atualmente.

“Não há nenhuma forma de resolver a questão previdenciária que está travando o crescimento do País sem que se façam alterações nas regras de aposentadoria e de pensão”, diz Paulo Tafner, economista e pesquisador do IPEA.

Ele é pragmático e sentencia: ou você se acostuma com a ideia ou a próxima geração pagará uma conta ainda maior. “A gente corre um sério risco enquanto País de envelhecer e não ter gerado renda para ter um padrão de vida razoável. Nós vamos ser velhos e pobres. E aí é um risco: a sociedade vai ser uma sociedade macilenta”.

Dinheiro que conta – e faz falta

Mas também há outro desafio: se manter empregado.
O mercado é cruel para que tem o peso da idade e da experiência nas costas. No centro de São Paulo, há Franciscos em cada esquina.

“To procurando qualquer coisa pra eu trabalhar. Soltei currículo para tudo que é lado, fiz entrevistas e estou aguardando, daí fui parar em um albergue porque não consegui mais, dinheiro acabou”, conta Francisco Xavier da Silva.

A renda de idosos também pode sustentar não apenas filhos em idade economicamente ativa, mas netos e bisnetos.

A terapeura ocupacional especialista em gerontologia, Mariela Besse, explica – no entanto – que a taxa de desemprego vem caindo timidamente entre os mais velhos. “Porque tem uma questão de sabedoria, não só de formação técnica, mas de sabedoria, experiência. O idoso tem um papel muito importante não só no mercado de trabalho, mas na sociedade como um todo. Ele é um transmissor de memórias”.

Na lista das vagas que mais absorvem o mercado da terceira idade estão corretor de imóveis, motorista, vendedor, e contador.

Mas, para trabalhar é preciso, além de disposição, saúde!

Os desafios da dependência entre os mais velhos é o tema do próximo capítulo da série especial “Longevidade: uma (longa) corrida de obstáculos”.

Por Carolina Ercolin