Inglaterra poderá ser a maior prejudicada se deixar de ser centro financeiro europeu

  • Por Jovem Pan
  • 24/06/2016 09h51
J. F. DIORIO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Rubens Ricupero, embaixador nos EUA em duas oportunidades (1974-1977 e 1991-1993)

 Para o embaixador Rubens Ricupero, o maior afetado pela saída do Reino Unido da União Europeia será a Inglaterra: “A Inglaterra há muito tempo está encolhendo. Foi a maior potência do mundo até a 1ª guerra mundial e depois declinou em relação aos EUA e a Alemanha. Perdeu o império britânico depois da 2ª guerra, então dá a impressão que eles estão voltando ao território original que ela tinha na idade média. (…) A vantagem de Londres é ser o maior centro financeiro e bancário da Europa, graças às vantagens que os outros europeus deram. Se agora, como consequência da saída, os países passarem a ter seus próprios centros financeiros, a Inglaterra perde sua última grande vantagem”.

Em entrevista à Jovem Pan, Ricupero defende que os motivos da decisão de sair são internos do Reino Unido: “As razões de saída da Inglaterra são britânicas e tem pouco a ver com o resto do continente. A Inglaterra não fazia parte do Euro, não aderiu à abolição das fronteiras e dos vistos. De certa forma, os ingleses sempre tiveram uma atitude ambivalente”.

O jurista e diplomata acredita que a imigração não foi um fator fundamental para a decisão: “O afluxo de imigrantes é curioso, porque a Inglaterra tem uma população gigantesca de muçulmanos, paquistaneses, africanos, gente do Caribe, que são da Commonwealth. Nas últimas eleições foi eleito um prefeito de origem paquistanesa (em Londres). Por um lado eles sempre tiveram uma convivência harmoniosa com essa população, ao contrário da França. Por outro lado, existe uma reação com mais esse afluxo que veio da UE”.

Ricupero destacou os efeitos imediatos da votação, mas acha difícil prever os desdobramentos futuros: “os efeitos imediatos já se fazem sentir, estão caindo as bolsas, tem um choque muito grande na praça financeira, nas ações, no nível de atividade econômica. Outro efeito imediato é a renúncia do 1º ministro. (…) Mas foi uma escolha por pouca diferença. Uma vez feita, vai haver esforço de um lado e do outro para conter os danos, minimizar os impactos. Vai haver um período de transição não muito preciso”.