Quase 200 pessoas já sofreram ferimentos oculares durante os protestos no Chile

Repressão policial já deixou 22 mortos e 2.209 feridos

  • Por Jovem Pan
  • 16/11/2019 11h04
EFE/Alberto ValdésPrincipal reivindicação dos manifestantes é acabar com a desigualdade de um modelo econômico neoliberal e garantir direitos fundamentais como a saúde, a aposentadoria e a educação

O estudante secundarista Carlos Vivanco sentiu sangue escorrer pelo rosto e percebeu que perdia a visão em um dos olhos. Nesse momento, o jovem de 18 anos entrou para o grupo de quase 200 pessoas com ferimentos oculares nos protestos que ocorrem no Chile há aproximadamente um mês.

Em meio a luta por um País com menos desigualdade social, Carlos foi atingido por um tiro de bala de chumbo que partiu das forças policiais que reprimiam os manifestantes. Apesar do ferimento, ele conta que a vontade de lutar é ainda maior. “Na verdade, tenho mais raiva do que medo, mais ódio do que pena. Quero lutar contra essas pessoas que estão aí fora mutilando os outros”, afirmou.

O estudante da periferia de Santiago, capital do Chile, perdeu totalmente a visão no olho esquerdo há cerca de três semanas, quando fugia da polícia em uma manifestação e foi atingido oito vezes por disparos.

Além dele, o músico César Callozo, de 37 anos, também sofreu com a repressão. Ele espera por atendimento ao lado de outros atingidos e relatou que, no momento em que levou o tiro, não aguentou a dor. “O ambiente estava muito lindo, de repente senti um golpe no olho e cai no chão. Me retorci um pouco, depois a dor passou e só senti o meu rosto ‘dormindo’.”

O médico oftalmologista da unidade de trauma ocular do Hospital Del Salvador, em Santiago, Maurício Lopes, recebe a maioria dos casos de atingidos por balas de chumbo. Ele lamentou a situação e apontou um recorde no número de feridos nos olhos em protestos.

“Tenho 20 anos atuando como médico ocular e nunca tinha acontecido, na história do Chile, tantos números de casos de cegueira. É muito mais que outras zonas de conflito, como em Hong Kong, com os coletes amarelos em Paris, na Espanha, na Palestina”, disse.

O médico afirmou, ainda, que em 35% dos casos ocorreram lesões profundas com grandes chances de perda total da visão. As manifestações já deixaram 22 mortos, segundo um balanço divulgado pelo governo. De acordo com o levantamento, seis delas são estrangeiras. Conforme o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH), outras cinco teriam ocorrido nas mãos de agentes estatais, policiais ou militares.

Além dos mortos, segundo dados da organização de direitos humanos, que monitora protestos de rua, hospitais e delegacias de polícia, já são 2.209 feridos.

Relembre

O aumento do preço do bilhete do metrô de Santiago foi a faísca que desencadeou os maiores protestos do país desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990. A principal reivindicação dos manifestantes é acabar com a desigualdade de um modelo econômico neoliberal e garantir direitos fundamentais como a saúde, a aposentadoria e a educação.

* Com informações do repórter Renan Porto