A Posição do Brasil no Mundo – Parte 1: A ressaca dos anos dourados veio forte

  • Por Ulisses Neto/Jovem Pan
  • 18/10/2017 08h55
Flickr/LeimenideEm 2010, o Brasil ainda surfava uma onda de credibilidade internacional, mas ressaca dos supostos anos dourados não poderia ser mais forte

Afogado numa crise política e econômica sem precedentes, o Brasil perdeu espaço e credibilidade no plano internacional. Nesta semana, o correspondente da Jovem Pan na Europa, Ulisses Neto, analisa a posição que o país ocupa atualmente nas discussões globais.

Quando eu cheguei à Europa, em 2010, o Brasil ainda surfava uma onda de credibilidade internacional.

O País se preparava para sediar Copa e Olimpíada na sequência, se aventurava tentando negociar a paz entre Palestina e Israel, discutia o acordo nuclear do Irã e chegou até a superar o PIB do Reino Unido.

Não é exagero. Quando eu contava que era brasileiro, os britânicos me perguntavam o que raios eu estava fazendo em Londres. O dinheiro estava em São Paulo, a boa vida estava no Rio.

Bom, todo mundo sabe como a história virou. A ressaca dos supostos anos dourados não poderia ser mais forte e hoje é até difícil questionar qual é a posição do Brasil no mundo sendo que a gente mal sabe qual é a posição do Brasil dentro de casa mesmo.

Mas, enfim, essa é proposta desta série de reportagens: o Brasil tem condições de voltar a influenciar o mundo? Como nosso país é visto atualmente depois do impeachment e de escândalos que parecem não ter fim?

Antes de mais nada precisamos definir dois conceitos básicos das posições que o País pode ou não ocupar no cenário internacional: o Brasil é uma potência média, ou uma potência emergente.

Uma potência média é mais ou menos um país relevante na política internacional, com algum grau de desenvolvimento econômico, mas sem uma influência determinante nos assuntos mais complexos.

Uma potência emergente seriam países que têm atributos nacionais de maior peso como população, território, riquezas e capacidade militar e que se projetam à condição de categoria de grande potência. Querem ter voz na mesa dos adultos num futuro próximo.

“O Brasil pode ser descrito como um país cuja diplomacia alcançou influencia global. Essa categoria é mais interessante do que dizer se é médio porte, emergente, se chegou lá ou não”. Esse é o embaixador do Brasil na Itália, Antônio Patriota, ex-ministro das Relações Exteriores no governo Dilma e diplomata bastante experiente.

Eu encontrei o ex-ministro em Londres, na semana passada, em um evento do Brazil Institute do King’s College, uma renomada universidade de Londres. Patriota sustenta que apesar das crises, o Brasil não perdeu sua influência no mundo porque a rede diplomática do país é muito significativa: númeor de embaixadas 140 embaixadas, 1.500 diplomatas. A Índia tem a metade do número de diplomatas. Segundo a economia latino-americana, temos 40 embaixadas na África”.

Realmente parece muito.

“É pouco. Se o Brasil tem ambições universais, o tamanho do nosso serviço no exterior deveria ser maior. Os Estados Unidos têm algo próximo de 15 mil”. Por telefone, conversei com o professor Guilherme Casarões, que é vice-coordenador da graduação em Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas. O doutor em Ciência Política pela USP e mestre em Relações Internacionais pela Unicamp lembra que o Brasil realmente ampliou muito sua presença diplomática ao redor do mundo, sobretudo na era Lula. Porém, a conta para essa política externa ativa e altiva ficou pesada demais quando o dinheiro escasseou.

“São coisas quase caricaturais. Como por exemplo a penúria em que o Itamaraty se viu em 2014. O fato de que o Brasil não tinha mais dinheiro para pagar a conta de luz e o calote que a gente deu em organizações internacionais como Unasul, Unesco. A soma destes fatores faz com se se tenha descolamento entre retórica e prática”, diz Casarões.

O que ele quer dizer é o seguinte: o Brasil se viu como potência emergente, atuou assim por vários anos, mas não segurou o rojão. Quando o país entrou em crise, sustentar essa investida em busca de seguidores ficou difícil de sustentar.

“Sustentar, mas também explicar para a cidadania brasiuleira que também estão pobres, faltando educação, faltando saúde, serviços”. A professora Mahrukh Doctor, da Universidade de Hull, na Inglaterra, chama a investida do Brasil no Governo Lula de diplomacia da generosidade, que ajudou o País a conquistar posições importantes na África, por exemplo.

Por um período relevante, o soft power brasileiro, combinado com os investimentos financeiros patrocinados pelo BNDES e outros programas federais ajudou o País a se projetar como potência emergente, mesmo sem ter uma capacidade militar relevante nem desfrutar de trocas comerciais de peso, que são consideradas condições básicas para uma potência de primeira grandeza.

E percebam que o Brasil ainda colhe os frutos dessa política, mesmo em um período de extrema vulnerabilidade institucional combinada com uma crise financeira sem precedentes, como me conta o professor Andrés Malamud, especialista em Política Internacional da Universidade de Lisboa: “o Brasil tem dois brasileiros nomeados em altíssimas posições internacionais, mesmo no momento em que o Brasil pesa menos na política internacional”.

Malamud se refere ao diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, Roberto Azevedo, e José Graziano, diretor-geral da FAO, agência da ONU para alimentação e agricultura. “Isto que mostra a inércia das políticas, e o fato de o Brasil ter efetivamente emergido no aspecto diplomático, no aspecto soft das políticas. Agora está a conseguir frutos daquilo que investiu, mas é muito difícil que consiga isso no futuro”.

E aí que mora o problema: o Brasil praticamente se retirou dos grandes debates em nível internacional e parou de plantar desde a crise política.

Essa será a discussão do segundo capítulo desta série que vai ao ar nesta quinta-feira (19) no Jornal da Manhã.

Confira a primeira parte do especial do correspondente da Jovem Pan na Europa, Ulisses Neto, sobre a posição do Brasil no mundo de hoje: