Após Brexit, Johnson não pretende seguir acordo bilateral desejado pela UE

  • Por Ulisses Neto/Jovem Pan
  • 04/02/2020 08h16 - Atualizado em 04/02/2020 09h43
EFE/EPA/IAN LANGSDONA Europa tem padrões de qualidade, relações de trabalho e subsídios para produtores que são mais elevados que o resto do mundo

As negociações entre Grã Bretanha e União Europeia para um acordo comercial bilateral começaram com expectativas bastante distintas. Na segunda-feira (3), o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, apresentou alguns detalhes do que ele pretende negociar com os europeus.

O objetivo é ter um acordo bilateral sem tarifas, no estilo que o Canadá firmou com o bloco recentemente. Mas a União Europeia não quer correr o risco de ter um competidor de peso bem na sua porta.

Por isso, o bloco também anunciou na segunda que sua intenção é assinar um acordo que mantenha os seus padrões de produção também na ilha recém divorciada.

Embora o assunto seja complexo, trocando em miúdos o raciocínio é até bastante simples.

A Europa tem padrões de qualidade, relações de trabalho e subsídios para produtores que são mais elevados que o resto do mundo. Isso, evidentemente, também impacta nos custos de produção — portanto, se os britânicos não mantiverem o mesmo patamar, os produtos daqui podem acabar se tornando competidores desleais para os europeus.

Mas do lado da ilha o sentimento é que o Reino Unido não passou quase quatro anos se engalfinhando pelo Brexit só para ter que seguir as regras da União Europeia por conta de um acordo comercial.

De qualquer forma, a perspectiva de um embate pela frente já derrubou ainda mais a libra esterlina e deixou alguns especialistas britânicos em alerta.

Relação com a imprensa

Enquanto isso, o governo de Boris Johnson segue seu enfrentamento crescente com a mídia do país, no estilo que Donald Trump adotou nos Estados Unidos — e que Jair Bolsonaro também emula no Brasil.

O gabinete do conservador tentou escolher quais veículos de mídia iriam participar de uma entrevista para detalhar questões técnicas das negociações com a Europa. No final, todos os repórteres presentes decidiram boicotar a entrevista, ao ver alguns dos colegas sendo retirados do número 10 de Downing Street.

A manifestação foi no sentido de que o governo não pode escolher quem vai escrutinar suas ações , afinal este é um trabalho da imprensa.

Johnson tenta burlar a mídia para conversar diretamente com seu eleitor — até uma live semanal foi criada em que o primeiro-ministro responde perguntas da audiência cuidadosamente selecionadas. Uma delas, recentemente, questionava qual tipo de shampoo o primeiro-ministro usa — para se ter uma ideia.

O gabinete de Johnson está proibido de manter relações com jornalistas políticos e o primeiro-ministro tem evitado determinadas emissoras.

Na era da pós verdade essa parece uma tática cada vez mais comum entre os políticos que pretendem dominar a narrativa sobre si próprios, numa maneira bem mais confortável de se relacionar com a opinião pública.