Johnson dá espaço a Trump e avalia como ‘possível’ substituir acordo fechado com Irã em 2015

  • Por Ulisses Neto/Jovem Pan
  • 15/01/2020 10h12
EFEO raciocínio é simples: nada vai funcionar na região sem a chancela da Casa Branca, então é necessário dar espaço para que Trump coloque seu plano em prática

Donald Trump pode ter atirado no que viu, mas acabou acertando no que não viu quando decidiu assassinar o general iraniano Qassem Soleimani. O regime de Teerã está perdendo a disputa pela opinião pública local depois de reconhecer que derrubou acidentalmente o avião ucraniano.

Isso em um momento em que opositores e apoiadores do aiatolá, em tese, estariam unidos para responder à agressão norte-americana. A oportunidade que se abriu para os negociadores do ocidente é preciosa – e até mesmo os europeus começam a se movimentar.

Na terça-feira (14) o primeiro-ministro britânico Boris Jonhson avaliou que é possível substituir o acordo nuclear fechado com o Irã em 2015. Para o conservador, o ideal seria colocar no lugar do Plano de Ação Conjunto Global um eventual ‘Acordo Trump’.

O raciocínio é simples: nada vai funcionar na região sem a chancela da Casa Branca, logo é necessário dar espaço para que Trump coloque seu plano em prática. O problema é saber qual, de fato, é o plano de Trump — caso ele realmente tenha algo em mente que contemple negociações de longo prazo.

Reino Unido, França e Alemanha vem tentando salvar o acordo de 2015 desde quando Trump retirou os Estados Unidos em 2018. Porém, os desdobramentos da última semana deixaram claro que será bem difícil conseguir manter alguma normalidade baseada no texto negociado por Barack Obama.

Os iranianos já começaram, inclusive, a desrespeitar os termos do texto e os europeus, por sua vez, acionaram os mecanismos burocráticos previstos no documento para responder de forma diplomática.

No meio deste imbróglio ainda há o caso do embaixador britânico em Teerã, Rob Macaire, que foi declarado como persona non grata pela justiça iraniana. Macaire é acusado de participar dos protestos na capital persa contra o ataque ao avião de passageiros ucraniano que deixou 176 mortos.

Agora o diplomata corre o risco de ser expulso do país, o que só deve agravar ainda mais a relação do Irã com os países do Ocidente.

O fato é que se o governo de Teerã ainda tinha algum trânsito com os europeus enquanto era hostilizado pelos Estados Unidos, essa via parece estar cada vez mais estreita. E esse é o tipo de isolamento que o governo local menos precisa no momento.

O reconhecimento do ataque acidental foi recebido como um gesto de boa fé pelos europeus. Mas dado o tamanho da crise que Teerã enfrenta este pode ter sido, na verdade, a bala de prata no atual regime.